quinta-feira, 7 de novembro de 2013

O Poder das Palavras

 


Etimológica ou semanticamente falando todas as palavras existentes têm um significado próprio, bem sabemos.
Por exemplo: se alguém nos disser a palavra chuva, saberemos imediatamente do que se trata, isto é, chuva tem um mesmo significado - em lugares onde chove  - em qualquer idioma, 
O que geralmente não reparamos é que além da significação em si dos termos, da semântica, há outras de ordem emocional, psicológica, que ocorrem no âmbito da consciência.
Assim, quando ouço a palavra chuva, ela me soa agradável porque gosto de chuva. Não sei exatamente por que gosto, mas elas me fazem bem  – a palavra e a própria chuva.
Já não deverá provocar o mesmo efeito positivo quando ouvida por alguém que tenha vivido experiências desagradáveis ou assustadoras com chuva.
Assim, o mais importante significado de um termo é aquele impresso em nossa mente e não necessariamente os seus sinônimos encontrados nos dicionários.
Podemos considerar incontáveis exemplos semelhantes ao anterior. Pensemos na palavra dor. Cada um de nós sabe o que é dor e compreende também que ha muitas dores, todas diferentes e de muitas intensidades. Logo, não posso nunca pretender avaliar qual e como é a dor do outro assim como não conseguirei saber em um primeiro momento por qual motivo uns têm prazer na chuva e outros medo ou pânico.
Consideremos que se eu disser que uma criança é gorduchinha, possivelmente sua mãe se encherá de alegria ou orgulho, pois haverá na afirmação o significado implícito de que ela cuida bem daquele bebê; entretanto, se afirmar que a mãe é quem está  gorduchinha talvez desencadeie nela reações incalculáveis que podem ir de um mero descontentamento até, no limite, um estado de depressão.
Quando dizemos que palavras têm poder não estamos de todo errados porque tudo o que vibra provoca reações e movimentos ainda que imperceptíveis, entretanto, a força maior de um som está no que ele significa à mente de quem ouve.
Entretanto, nem sempre reparamos no que podemos produzir com as palavras, nem conseguiríamos, se tentássemos, controlar o tempo todo o que pronunciamos. Ficaríamos de certa forma inclinados a uma desagradável semimudez somente superável se nos educássemos a cultivar certo tipo de palavras com forças positivas, e abolir ou reduzir as negativas. Isto é: sempre que nos comunicamos de forma consciente, tudo o que dizemos carrega alguma intenção. E essa sim, a intenção, podemos modular, dominar, até evitar que seja expressada.
É importante fazermos sempre um exame de consciência, uma avaliação de nosso estado emocional e de que forma estamos externando nossos sentimentos.
Geralmente, em ambientes exteriores ao familiar ou de nossas mais estreitas e afetuosas relações, colocamos nossas máscaras de seres bem-educados, polidos, coerentes, sensatos e tantas outras mais para atender aos padrões ou exigências impostos pelas sociedades; calculamos cada expressão ou gesto para que não nos levem a mal, não se ofendam, não nos critiquem, não nos demitam ou que, simplesmente, não nos vejam como realmente somos.
Mas, retornando ao nosso ambiente de intimidade e afeto que pode incluir não apenas nosso lar e família, onde deveríamos ser naturalmente polidos e cuidadosos ao extremo, exatamente aí retiramos a maioria das máscaras e externamos todos os desconfortos causados pelos sapos que engolimos durante o dia, tudo o que está entalado em nós. Quando estamos com pessoas que nos são caras, que nos permitem liberdade de expressão, confiança, é sobre elas que despejamos nosso mau humor, chateações, revoltas.  Fazemos das quem mais merecem nossos cuidados, depósitos de desabafos, reclamações, lamentações. E comumente é a elas que dirigimos a ofensa que não tivemos coragem de disparar contra quem tínhamos de fazê-lo; é sobre as pessoas mais queridas que depositamos o peso de nossa indignação com o mundo exterior porque a falta de coragem nos impediu de descarrega-la lá fora contra quem ou o que  a nos causou.  O xingamento que devíamos ter dirigido a um desafeto e não o fizemos por covardia ou conveniência conforme a máscara que usávamos no instante em que uma ofensa nos atingiu, é atirado em quem nos ama ou amamos muito, com quem convivemos e repartimos nossa vida. Porque, pensamos, não corremos riscos de receber um contragolpe.
Achamos que por nos amarem, nos respeitarem ou quererem bem, pessoas têm obrigação e dever de nos ouvir em todos os desabafos e desaforos sem se melindrarErramos. Ninguém sente prazer em ouvir dia após dia nossos descontentamentos. E quanto mais insistimos nessa prática tornamo-nos agressores. Quanto mais agredimos transferimos e nos aliviamos dos nossos problemas acreditando que está tudo muito bem.
Erramos. Tudo vai mal e o inesperado pode acontecer, a relação talvez se transforme em um permanente combate ou, no extremo, a parte mais frágil pode simplesmente apanhar sua mala e sair à procura de sorrisos, palavras mansas, elogios. De outra pessoa que conte histórias bonitas, que conte estrelas, que cante.
Palavras edificam ou destroem vidas, uniões, famílias.
É necessário medirmos bem, sempre, tudo o que dizemos, a quem e como o fazemos.
A forma como nos pronunciamos, a entonação da voz, a tônica nas sílabas e palavras podem mudar uma história.
Há gente fazendo gente feliz com a brandura das palavras.
Houve gente que já matou e gente que já morreu por causa delas.

Gilberto Leite
gilbertoleite.sp@gmail.com