segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Baratas





Há pouco uma barata bisbilhoteira quase colocou em estado de comoção a funcionária da limpeza que cuida de meu escritório. Em pânico, ela, a funcionária, entrou aos gritos: “Mata ela! Mata ela!”
Batendo o pé ao lado do bicho assustado fui fazendo com que se afastasse até atingir o jardim.  

É interessante como o medo de tal inseto se instalou na humanidade. A psicologia tem suas explicações, eu nunca procurei estudar o porquê ou os porquês embora compreenda pessoas que sentem pavor. Intriga-me, mais que o medo do inseto, o prazer que alguns sentem em matá-lo ou vê-lo morto.

Lembrei-me imediatamente de uma madrugada em um acampamento perto da cidade de Monte Sião, bem ao sul de Minas Gerais: Estávamos Paulo, Glória, Gilka, Amélia e eu, despreocupado quinteto ao redor da fogueira na noite fria de junho de um ano já diluído há muito no tempo.  Falávamos, recordo-me bem, da possível inexistência de uma estrela que ainda brilhava mesmo morta. Não existia e brilhava, calculávamos! 
Discutíamos quando uma barata incomodada com o calor da fogueira pôs-se a atravessar o nosso espaço completamente desorientada.  Amélia e Gilka gritaram. Glória encolheu-se arrepiada elevando os pés sobre a banqueta. Paulo, como a colaboradora da limpeza, me ordenou: "Mata! Mata!"
Levantei-me e pus-me a expulsar a intrusa, como fiz há pouco com sua parente que rondava o escritório.  
– Saia daí, você vai se queimar!
Assim que ela se afastou, a estrela que brilhava mesmo morta não era mais o assunto. Eu era.
Paulo, debochando, ria ao exclamar: “Ele conversa com baratas! vocês viram? “você vai se queimar!” – imitava.
Glória: “Desse tamanho e não tem coragem de pisar num inseto...”
 Mais tarde, ao afastar-me com Amélia para nossa tenda ao fundo fui refletindo sobre alguns significados da cena passada. Compreender Paulo implicava conhecer o que ele entendia por conversar com baratas ou o que lhe significava conversar, e, ainda, o que representava para ele uma barata. Já Glória se fez clara: “desse tamanho e não tem coragem”. Mas faz tempo. Foi no século passado. Aquele episódio nem me importa mais. Do grupo, do acampamento, da barata e da fogueira só restaram o brilho da estrela morta e minha recordação.
Agora, ainda vejo a funcionária desconfiada de minha sanidade. Deve estar imaginando o mesmo que Paulo e Glória pensaram um dia: “Fala com baratas! Não tem coragem de matá-las”

Não me importo com o que possam pensar a esse respeito, não  vejo heroísmo no ato de pisar sobre um inseto; baratas  são indefesas, frágeis, tolas.  Não há virtude nem coragem, qualquer que seja o significado de virtude e de coragem, em esmagar voluntariamente um bicho, ele é um ser vivo, com o mesmo direito que o meu ao oxigênio, à comida, ao espaço.
Quando afirmei acima, da noite em que contávamos estrelas, que a barata invadiu nosso espaço, sugerindo subliminarmente que ele pertencia a nós humanos, foi um artifício de linguagem; acreditar que o território fosse exclusivamente nosso e que um inseto nele seria um invasor consistiria erro grave.
A ideia de propriedade ou direito sobre um território já amadurecera claramente em mim muito antes daquele momento distante embora, nesse sentido, insetos nunca tenham me preocupado. Para eles não há invasão porque não existe divisão, o espaço é de todos os seres.

Desde que perdi o medo de escuro e dos monstros que povoam a mente de crianças, sempre que me deparo com um desses bichos procuro encaminhá-los ou devolvê-los ao lugar de onde possivelmente tenham saído: um ralo, um bueiro, uma touceira de capim ou um arvoredo.
Se eliminar uma barata não acabarei com a existência delas: são trilhões no mundo. Se exterminasse uma ou todas elas estaria cometendo um crime ecológico.
Ainda que exterminar baratas não seja considerado crime ou ato violento, eu, desculpem-me, devo confessar que gosto delas, tanto quanto dos pássaros, peixes, macacos, cães... Somos filhos da mesma origem. Contemos os mesmos elementos químicos e a mesma vontade inicial da Criação.

Gilberto Leite