terça-feira, 2 de junho de 2015

Voltas que a vida dá


Garoava. Amparei Helena com meu guarda-chuva até que entrasse no automóvel estacionado um pouco distante de seu portão. Dei a volta por trás do carro, indo me acomodar no meu banco “do motorista”. Ao me ajeitar percebi Helena bem aprumada com a ponta do queixo ligeiramente elevada e desafiante diferentemente de seu jeito costumeiro de se arrumar no assento.
Observei-a curioso em sua postura mais para de bailarina do que para revisora de acabamento de moda feminina, que era sua profissão.
Decifrando meu espanto ela se fez mais enigmática jogando os cabelos para um lado e outro em suaves movimentos mostrando-me rosto e colo nus.  Olhos ansiosos, perguntou-me:
- Então, o que acha?
Um vazio imenso caiu sobre mim, uma espécie de escuridão, enorme aflição. O que haveria para eu achar ?
Senti-me como ao encontrar pessoa com quem se está muito acostumado ou de convívio próximo, de quem não se recorda o nome. Uma tortura nos apunhala, utiliza-se de todos os artifícios mentais e o tal nome não vem. Olha-se para o rosto familiar, ouve-se e a voz conhecida, gestos sabidos, tudo, e o nome se nos esconde. Horrível.
Horrível olhar Helena aguardando resposta para a pergunta “O que acha?”
Paralisei. Inúmeros pensamentos me ocorreram. Nessa situação geralmente o óbvio não clareia nossa consciência. Observei-a o mais possível no mínimo de tempo para responder um inseguro “está bom...”
- Bom? Só isso?
- Bom não: Ótimo – corrigi categoricamente. Está ótimo!
- Ótimo o quê? – insistiu.
- O tom do cabelo – arrisquei. Você retocou...
Helena mudou de postura. Apoiou a mão esquerda sobre o peito; a direita trouxe para bem perto do meu rosto, com o dedo indicador rijo apontando-me de maneira a me indicar haver cometido erro grave:
- Incrível como homem é tudo igual! Cabelo! Ora, cabelo... Tem paciência... Por acaso não é capaz de enxergar isso aqui no meu pescoço?!
Entre o dedo que me avia acusado e o polegar Helena segurou um pequenino objeto dourado dependurado numa delicada corrente no mesmo tom de amarelo. Apontou-o para mim acrescentando:
- De ouro! Comprei há quase uma semana. Esperei até agora para lhe fazer surpresa. Me preparei para você, passei horas examinando o caimento antes de vir encontra-lo e me diz que mudei o tom do cabelo! Não tem a menor sensibilidade.
Não pude responder. Não devia. Há erros que não se pode querer reparar. Contive-me em lamentar silenciosamente esse meu jeito desligado de não observar detalhes. Mulheres são perfeitas na arte de saber observar e ver, infinitamente melhores que homens. Se, por exemplo, um pequeno pelo ciliar escapa do olho e repousa sobre a camisa, ainda que escura, a mulher de longe o percebe. Um fio de linha de um só milímetro que fuja para fora do orifício do botão da camisa, ainda que da mesma cor do tecido, ela vê. Homens não enxergamos essas coisas. Não vemos detalhes mínimos. Somos imperfeitos nesse ponto.
Todas as vezes em que olhei os olhos de Helena jamais reparei nessas coisas pequenas, se estavam bem pintados, retocados com qual cor. Mulheres veem isso. Eu não via, para mim olhos de Helena eram janelas por onde se manifestava seu espírito. Era-me muito importante que estivesse espiritualmente bem. Isso eu enxergava através de seus olhos. Nunca fiz conta se estavam coloridos, borrados ou –como ela dizia – “lambidos”.
A boca de Helena era a porta do coração. Se sorria o coração estava feliz e isso é que me fazia também feliz. Se a voz ocorria brilhante indicava que também brilhava o coração. O batom para mim tinha importância menor, talvez nenhuma.
Sua pele era o mesmo que pétalas são para as flores: Revelam o viço quando lhes bate luz, ou se lhes caem o orvalho em minúsculas gotas para mais tarde resplandecerem em vários tons de arco-íris. Arco-íris era o que eu via espargir da pele de Helena, nunca defeitos.
O pescoço e o colo de Helena eram para beijar, acariciar com as mãos. Não os entendia como suporte de ostentar enfeites artificiais, ela não necessitava disso, Helena era a beleza. Maior e mais importante que qualquer miudeza com que se possa desejar valorizar o corpo.
Eu sabia disso. Ela não me compreendia.
Com a ponta do indicador que me acusara apertou bem o centro do meu peito acrescentando:
- Você tem de se corrigir, deve prestar mais atenção em detalhes; toda a graça reside nos detalhes, em coisas mínimas, pequenos objetos... Procure viver mais atento para não perder situações valiosas da sua vida! Percebe que este momento podia ter sido mágico e o seu descuido desencantou tudo?
Percebi. Lamentei silenciosamente estar errado. Odiei meu jeito distraído e desejei profundamente mudar, ser melhor observador.
Seguimos pensativos para o nosso destino: jantar com vinho tinto suave e depois a longa noite como havíamos pactuado ainda que não verbalmente.
Pelo fim da madrugada quando parei o carro para Helena descer em frente ao seu prédio, sentenciou-me decidida:
- Não posso negar que a noite foi boa. Por outro lado não devo esconder também que começou de forma decepcionante e ainda tenho alguma coisa engasgada aqui dentro me incomodando muito. Não sei explicar, mas sinto que poderíamos nos dar um tempo...
- Qual o significado de dar um tempo, para você?
- Eu quero pensar melhor. Você também poderia aproveitar para reciclar sua visão das coisas.
- Um tempo - repeti - que pode ser curto, longo ou eterno. Está bem. Se é necessário, concedamo-nos.
Não afirmo que me esqueci de Helena, não seria verdade. A separação fora brusca e não alinhavada como deveria ter sido decisão tão crucial.

Passaram-se sete meses da separação. 
Quando outubro se esvaia quente e florido decorado ainda mais pelos pássaros, abelhas e borboletas, alguém deixou em minha caixa de correio um envelope contendo um bilhete à moda de antigamente, manuscrito a caneta esferográfica. Descobri-o uns dias após ter sido lá posto (estava datado e havia outros papéis de propaganda por cima). Nele Helena dizia que "hoje percebo quanto me precipitei (...) ninguém é  perfeito nem está livre de erros, cada um tem seu jeito de ser (...) sabe que ainda moro no mesmo endereço, o telefone é o mesmo (...) e eu mudei um pouco"
Pensei em procura-la. Pensei muito. Refleti também que não seria justo por já estar me envolvendo com Débora. 
Respondi também por escrito a mão.
A partir de então nasceu algo diferente em nós, uma amizade suave, livre e libertadora alimentada por cartas através das quais nos abríamos de coração. Nossas impressões carregadas pela energia dos corações nas mãos chancelavam os sentimentos e a veracidade contidos nas palavras. Depois, com o passar do tempo, aderimos à modernidade eletrônica deixando de lado as canetas de esfera e tinta pastosa sem nunca nos afastarmos da lealdade nas palavras.
Helena tinha um hábito interessante. Toda vez que me escrevia principiava descrevendo sua aparência e a forma como se apresentava: "hoje estou usando uma corrente de prata, uma blusa lilás..." ou "Estou usando um par de brincos com formato de flor e uma minúscula pedrinha brilhante no centro de cada um..." Ainda: "O anel, hoje, é o de pedrinha vermelha; como está calor uso uma regata branca de algodão..."
Todas as correspondências vinham assim. Penso que já sabia de cor todas as peças de bijuterias e joias que ela guardava em delicada caixinha de madeira presenteada pela bisavó, trazida de Portugal. Assim como sabia todas as peças de suas roupas tantas vezes descritas nas linhas prefaciais das mensagens.
Acredito, tivéssemos vivido juntos não saberíamos tanto um do outro quanto nos foi possível conhecer através dos escritos.
Helena mudou de cidade. Concluiu licenciatura. Foi brilhante no curso de mestrado e por ocasião da aproximação da solenidade de encerramento, sete anos e meio após a primeira mensagem deixada em um fim de outubro na minha caixa de correspondência, mandou-me convite impresso acompanhado de um bilhete que, por tê-lo também guardado como todas as cartas e mensagens que dela recebi, poderia reproduzir na íntegra. Como a totalidade não é conteúdo para vir a público exponho apenas alguns fragmentos:
"(...) agora uso apenas os brincos em forma de coração, a camisa xadrez de Campos do Jordão e jeans, não quis me emperiquitar toda; afora os brincos excluí todos os penduricalhos e brilhos, estou me sentindo nua... (...) quero estar bem simples e bonita no dia da cerimônia (...) Ah, importante: a aliança também deixei de usar, dela ficou somente a marquinha no meu dedo, você verá e se desejar poderá acompanha-la até desaparecer”  

gilbertoleite.sp@gmail.com