quarta-feira, 8 de abril de 2026

(Para Zélia)

Meu Samba-Enredo inesquecível

"...Enfeitei meu coração de confete e serpentina, minha mente se fez menina num mundo de recordação..." 
Não fosse carnaval eu teria achado exageradamente escandalosa a vestimenta que Zélia usou para o baile. Seu short jeans maliciosamente curto expondo-lhe as pernas  bronzeadas, e a camiseta provocantemente cavada nas costas exibindo muito da sua intimidade teriam feito meu ciúme ferver dentro do peito.
Carnaval, entretanto, tem a magia de tornar todo o exagero permitido, e assim Zélia era minha rainha e meus despeitos se desmanchavam como rolos de serpentinas atirados ao ar num misto de desprendimento e devaneios.
Seu corpo, úmido do suor que o bailar produz, grudava em minhas mãos também úmidas a conduzi-la no incessante girar que a marcação exigia. As gotas do seu rosto escorriam pelo meu - Zélia era alta -, oferecendo-me o delicioso sabor que a excitação exala.
Vozes, surdos, tamborins, metais e multidão ampliavam o calor no salão quase sem espaço para tantos foliões. Nossa quentura corporal abrandávamos com alguns copos de cerveja gelada em cada intervalo.
"...Oh, Praça Onze, tu és imortal; teus braços embalaram o samba..."
A última seleção musical trouxe somente famosos sambas de enredo das melhores escolas de samba do Rio de Janeiro. Zélia, extenuada pelo calor das danças e por nossa excitação abraçou-me como uma desvairada e cantou ao pé do meu ouvido toda a letra da melodia derradeira "... com reco-reco, pandeiro e tamborim, e lindas baianas, o samba ficou assim..."

Terminado o baile a madrugada ainda era noite escura pelas ruas calmas de Pindamonhangaba. 
O refrão da melodia derradeira ficou incrustado em minha memória.
Meu corpo impregnou-se com o cheiro de Zélia, para sempre, um odor único de mulher em êxtase.

Caminhamos lentamente exaustos e felizes. Deixei-a no portão de sua casa
A doce noite-madrugada tão especial não havia ainda clareado e nunca, nunca mais mais amanheceu em mim. 
Pinda, Zélia e o "bum bum paticumbum prucurundum" ainda hoje repousam em minha saudade como se a qualquer momento pudessem voltar a amanhecer apesar de saber que Pindamonhangaba passou e que Zélia ficou por lá.
E aqui no meu canto, sem carnaval nem namorada de short curto e blusa ousada, não é raro me pegar cantarolando o refrão "vem meu amor, manda a tristeza embora; é carnaval, é folia, neste dia ninguém chora..."