terça-feira, 9 de maio de 2017

O Maior Amor do Mundo



Houve um tempo em que era possível ainda ver, da frente da casa onde eu morava, o céu e o horizonte, e no fim da extensa rua, por entre gigantescas touceiras de bambus, as réstias do sol quando descia nos finais dos dias de primavera e de verão.
Por essa rua passava todas as tardes na direção das derradeiras réstias linda moça de cabelos cor de ferrugem, pele clara e sardenta, com seu uniforme escolar, voltando das aulas para sua casa que ficava, decerto, além ao bambuzal. Eu a ia observando desaparecer na distância da rua esburacada, no prenúncio de escuridão que rapidamente se transformava em véu a esconder a casa em que entraria ou que atalho tomaria lá adiante onde nem ela nem a rua podiam mais ser distinguidas. De tanto a observar em seus passos lentos, olhar perdido como se nada olhasse, passando como se não passasse, acho que me apaixonei. Talvez a tenha amado por causa da cor dos cabelos, das manchinhas em sua pele, da leveza no andar, mas, também, por me trazer crepúsculos e levar mistérios que se ocultavam com o chegar da noite. 
Naqueles tempos meus sonos eram mais difíceis: pensava muito na menina de cabelos cor de ferrugem, queria tê-la para mim, então, meus suspiros me apertavam o peito e meus olhos abertos quase não me deixavam mais dormir de tanta insônia e palpitações. 
Certa vez senti um pouco de coragem e perguntei seu nome. Disse-me que se chamava Ziza. Pedi para acompanha-la, respondeu-me que não deveria. 
Outra vez perguntei onde morava, indicou-me que além do bambuzal. Pedi para acompanha-la, disse-me que talvez num outro dia. 
Numa terceira vez ofereci-lhe um ramo de gerânios que ela aceitou com um sorriso lindo, dizendo que eu lhe parecia bom. Pedi para acompanha-la, disse-me não ter certeza se devia. 
O tempo foi passando, meu pouco de coragem me impedindo de insistir em acompanha-la e, quem sabe, no caminho, dizer que a amava. A timidez me deixava indeciso entre desistir ou agir. Desistir ou agir. Desistir... 
Houve um crepúsculo em que ela não passou. Esperei por muito tempo. Aguardei no dia seguinte e no outro, mas vim a entender que com a chegada das férias escolares ela não caminharia pela rua esburacada e poeirenta por quase dois meses. 
A vida dá muitas voltas e em cada volta imprevistos geralmente nos surpreendem. Num desses imprevistos minha família e eu tivemos de deixar nossa casa, ir para o interior onde permaneceríamos por algum tempo, não muito. Era uma época em que longas viagens ainda se faziam de trem. 
Embarcamos em um vagão de segunda. O trem partiu à noite. Vi, pelo vidro embaçado da janela todas as luzes passarem. No princípio eram um turbilhão, uma nebulosa que logo escasseou. Uma a uma iam dando adeus. Lembro-me da última que esperou-nos no topo de um poste, bem longe; fomos nos aproximando, chegando, até que ela passou a viajar para trás e desapareceu escondida pelo corpo do trem, na curva. 
Durante toda a viagem e todo o tempo em que permanecemos no interior, muito mais do que o planejado, a lembrança e a saudade de Ziza me acompanharam e cresceram em mim transformando-se no maior amor  da minha vida ainda tão jovem. Eu devia ter sido mais corajoso – pensava - e dito que a desejava, antes de nos separarmos; devia ter anotado seu endereço. Devia, mas, agora havia só lembranças e saudade.
Como nada é definitivo, um dia voltamos. Não para a mesma casa mas para o mesmo bairro, e a primeira coisa que fiz foi sair à procura de Ziza. Vários meses haviam passado e o sofrimento me dera coragem. Na pequena vila para além dos bambus muita gente conhecia a moça dos cabelos de ferrugem. Era a única com aquele tom. Fui informado de que ela e a família haviam se mudado para muito longe. Uma senhora moradora da casa vizinha da em que Ziza viveu explicou-me com certo cuidado que ela havia engravidado - Um escândalo, acrescentou com olhos arregalados. Por consequência, a família envergonhada "desapareceu no mundo". Foi o que me disse.  
Naquele tempo as coisas eram assim.  Fosse hoje talvez os acontecimentos tivessem desenrolar diferente.
Nunca soube para onde ela foi.  Sei, hoje, que de vez em quando o maior amor do mundo ainda aperta meu coração.

Gilberto Leite
gilbertoleite.sp@gmail.com

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Prece para meu cão




Entre a velha e desativada estação de trem e o bairro da Independência havia uns cinco quilômetros de estrada dos quais pelo menos quatro em terra batida.

Eu morava em um bairro novo perto da estação e me habituei a percorrer a pé a estrada para a Independência várias vezes por semana. Ida e volta.

Piolho, meu cão, era companheiro inseparável naquelas andanças. Seus pelos negros sempre voltavam encardidos, avermelhados de poeira, exigindo sempre uma boa escovada e banhos regulares de mangueira e xampu, quando voltavam a reluzir.

Havia uma pedra no caminho.

No caminho havia uma pedra.

Nela eu me sentava, tirava a garrafinha d’água do bolso para servir carinhosamente meu amigo que bebia na minha mão em concha. Dava-lhe também uns biscoitos que sempre levava para tornar nossos passeios mais agradáveis.

Depois do descanso e da ligeira refeição, Piolho saía em disparada à frente. Fazia meia volta perto do pontilhão sobre a linha do trem que ia para Taubaté e voltava ao meu encontro. Repetia a brincadeira algumas vezes até se cansar e me esperar sentado antes da linha férrea. Por algum motivo ele sabia que não devia ultrapassa-la sozinho. Era instintivo. Sempre me esperou para atravessarmos juntos. Nunca o ensinei. Acho que cães também têm seu inconsciente coletivo.

Visitávamos meus sobrinhos, brincávamos com eles e voltávamos serenos como as tardes que caíam sobre nós.

No caminho havia uma pedra.

Novamente sentávamos para a água e biscoitos.

Depois do descanso e da refeição, Piolho corria à frente, agora na direção da pista asfaltada mas não a atravessava. O inconsciente coletivo lhe dizia que era perigoso. Fazia meia volta e vinha ao meu encontro. Várias vezes, até cansar.

Quando começamos a sair juntos ele era ainda novo e pequeno, muito pequeno - por isso ganhara esse nome. Nas primeiras vezes levei-o preso a uma coleira longa, com medo de que pudesse se embrenhar pelos caminhos que nasciam da estrada ligando a lugares que eu então desconhecia, e neles se perder.

Com o tempo percebi que a coleira tornara-se desnecessária, abandonei-a. Ele ficou feliz com isso, ganhou mais liberdade, descobriu que podia distanciar-se e voltar, sem sair do meu campo de visão.

A pedra no caminho foi uma escolha dele: Certa vez, tendo me deixado para trás, sentou-se ao pé dela para me esperar. Na volta repetiu o mesmo ato. Nos dias seguintes também.

Foi assim que ela se transformou em nosso ponto obrigatório de parada.

Ele nunca soube, não entenderia; ninguém soube, jamais disse que a denominei “Pedra do Piolho”. Até hoje existe o registro em minha memória.

Foram muitas, muitas caminhadas.

Houve um dia em que meu amigo não quis me acompanhar. Recusou meu convite, não se interessou mesmo vendo-me encher o bolso de biscoitos.

Refleti e me lembrei de que em dias anteriores ele havia parado muitas vezes no caminho e, também, ultimamente, não dava mais aquelas corridas esticadas até o pontilhão ou à beira da via asfaltada. Andava cansado.

Fiz um carinho em sua cabeça e parti sozinho. Senti muito sua falta no percurso. O sentimento era o de estar mutilado, faltava uma parte em mim.

Piolho não andou mais comigo pela estrada para a Independência. Havia envelhecido sem que eu houvesse percebido, não aguentava mais a distância.

Passei a ir de carro para poder não me separar do amigo. Ele viajava sentado no banco traseiro olhando a paisagem que tão bem conhecia, mas sem qualquer expressão de alegria. Talvez seus prazeres estivessem se degenerando como em alguns humanos à beira da senilidade.

Entendi que não queria mais sair de casa. Fosse humano dir-se-ia que era depressão e o trataríamos com fluoxetina.

Ficava a maior parte do tempo deitado pelos cantos.

Adoeceu (doença de velhice, disse-me a veterinária).

Um dia - coincidentemente sete de setembro -  ele conquistou sua independência: Estava deitado em meu colo quando o coração parou. Seu último suspiro ficou para sempre em meu antebraço esquerdo. O do coração.

Seu corpo, para a eternidade, sepultado ao lado da “Pedra do Piolho”.

Nunca mais passei pela estrada, preferia dar a volta pelo centro da cidade.

Às vezes, quando rezo, procuro conversar com ele. Acho que me escuta.

Espíritos de cães são mais puros que espíritos de gente, penso eu. Não conhecem maldade. Penso, ainda, que a missão deles é a de alegrar nossos caminhos aqui na Terra.

Por isso rezo por meu Piolho e todos os outros que já passaram por aqui.


Gilberto Leite
gilbertoleite.sp@gmail.com

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Eu, arrependido, me confesso


Uma vez, confesso, menti.

Tive de mentir, se não me veria em apuros. Havia a necessidade imediata de criar uma aparência, era fundamental naquele momento da minha juventude parecer outra coisa que eu não era.

Não foi uma simples mentira, uma invenção dessas simples e tolas que a qualquer momento alguém pode perceber; foi minuciosamente estudada, sem um pormenor não calculado. Fui perfeito. A perfeição, claro, me exigiria muitos cuidados para não haver jamais contradição, atenção redobrada o tempo todo.

Uma mentira, contudo, não se mantém por si, em algum momento exigirá outra para se assegurar.

Assim, veio a segunda.
E duas também não se sustentam se não houver uma terceira convincente e forte...

Isso me conduziu ao exercício constante de inventar histórias a fim de manter uma primeira farsa que havia grudado em mim e já nem era mais importante nem necessária.

Quando me dei conta da dimensão da tolice da primeira fantasia decidi que devia apaga-la sem demora. A ela e as subsequentes.

Mas já havia algum tempo decorrido, pessoas envolvidas e crentes, e para corrigir sem deixar permanecer máculas nem cicatrizes eu teria de voltar atrás lá onde tudo começou e tecer novamente minha história sem pontos falsos, que somente assim a vida vale a pena.

Tempo não volta, mas ainda que o meu tempo voltasse certas pessoas não se encontrariam nos mesmos lugares das tantas mentiras; outras já estariam em lugar nenhum. Nem eu mesmo sei se me veria lá.
Não pude consertar como pretendia. Consegui apenas ajustar uns remendos na minha história e hoje quando olho para aquele falso eu que criei sinto remorso, a pior das dores. Não pude me refazer por inteiro.  
A dor da mentira causa danos ao coração e remendos na alma.


Gilberto Leite
gilbertoleite.sp@gmail.com

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Uma velha história de amor


 Pessoas e histórias se perpetuam nas memórias de outras pessoas ou em documentos impressos ou de alguma forma registrados enquanto houver quem relembre, ouça ou leia sobre elas independentemente do tempo que houver passado.  A história que narro a seguir não possuía nenhum registro escrito; permanecia solitariamente guardada em minha lembrança; como não acho justo mata-la ao morrer, exponho-a tal como ouvia há muitos anos.


(Existe no interior do Estado de São Paulo uma localidade muito pequena denominada Guarapiranga. É um distrito do também pequeno e aprazível  município de Ribeirão Bonito. Minha história de vida, de certa forma começa ali. Atualmente Guarapiranga não chega a contar 2 mil habitantes; possui algumas ruas bem arrumadas, uma praça ampla, igreja, escola, cemitério, banco, correio, conjunto esportivo mas já foi muito pequena. Há muitos anos não passava de um povoado com algumas famílias de proprietários e trabalhadores rurais vivendo em torno de um armazém e pharmácia cercados por terras de cultivo de café – e outras culturas secundárias – e gado. Naquele tempo, eu soube, a área "urbana" consistia de duas ruas. Melhor: eram duas fileiras de casas razoavelmente distantes umas das outras). 


Foi em Guarapiranga que viveram meus bisavós por parte materna, avó, tios-avós e alguns parentes distantes que não cheguei a conhecer. Creio que hoje lá não haja mais descendentes diretos daqueles meus velhos familiares. Sei de muitos fatos do lugar porque minha avó gostava de nos reunir, meus irmãos e eu, para rememorar seus tempos de infância contando-nos histórias por ela ouvidas ou vividas. Sua voz melodiosa, entonada e profunda desenhava em nossas mentes ora causos  intrigantes atribuídos ao imaginário, ora outros absolutamente reais, tão verdadeiros “como este sol que está alumiando”, dizia-nos .
De todas as histórias ouvidas sobre a vida em Guarapiranga uma das que mais emocionou foi a da Rainha.
Contava a avó, com lágrimas nos olhos, que, por algum motivo que desconhecia, pois ainda era bem menina quando aconteceu, uma enorme dificuldade financeira abateu sobre a família. Por consequência clara inquietação estampou-se nas fisionomias de seus pais, nas quais liam-se indissimuláveis preocupações. Talvez seus irmãos mais velhos compreendessem os motivos, pois também andavam mudados. Ela não, via apenas que a vida e as relações em casa não eram mais como antes. Abundâncias cederam lugar a racionamentos; habituais conversas e cantorias ao pé de todas as noites mudaram para sussurros cautelosos, e nos olhos do pai e mãe caíra um cismar misterioso a avisar a então menina – minha avó – que, simplesmente, as coisas não estavam nada bem.
Naqueles dias houve uma tarde em que o pai saiu para não muito longe, talvez Ribeirão Bonito ou para os lados de Boa Esperança do Sul – ela jamais soube – retornando com o pôr do sol, cansado e com muitas gotas de suor brotando dos poros da testa. Voltou sem palavras. Não quis jantar, não proseou, não tocou viola, não dormiu. Durante a madrugada todos ouviram seus suspiros e gemidos abafados no travesseiro porque haviam todos perdido o sono também. Quem conseguiria adormecer com o velho naquela aflição? A mãe – minha bisavó - cochichava solitária a reza do terço, um mal sinal. Terço se rezava às seis da tarde; fora de hora, inda mais de madrugada, só podia ser coisa ruim.

Coisa muito ruim havia ocorrido ou estava para acontecer em breve!
Amanheceu. Da cozinha exalou o aroma de café passado no coador de pano. Em seguida, à mesa, família reunida, o pai de minha avó, em vez de recitar a oração da manhã como agradecimento pela noite passada, pelo alimento, e mais um dia a viver, em vez disso coçou o rosto, baixou o olhar, pigarreou inseguro e anunciou:
-  Não fiquem zangados com o pai, pois eu tive de fazer algo muito doloroso, a vossa mãe já ficou sabendo... Hoje virá aqui um homem buscar a Rainha... tive de vender ela que era a única “coisa” de valor que nos restava, então, com o dinheirinho que entrar a gente começa a acertar a vida. Perdoem o pai...
"Rainha - dizia contundente minha avó - não era uma coisa. Nem tampouco um exemplar. Não era uma cabeça de gado, um animal qualquer. Era como que parte da família." Não vivia no curral mas à beira da porta da cozinha, às vezes metia a cabeça para dentro da janela como criança curiosa. Ela era quem dava o leite de todas as manhãs para a família e a quem mais se chegasse para um café com pão de milho e broa de fubá e queijo vindo também dela, e parecia tanto saber disso que seu leite especialmente “caprichado” era o que de melhor havia por todas as redondezas. Não recebera esse nome – Rainha - por acaso, era mais que “de estimação”, mais que uma princesa.
“Rainha só faltava falar e ainda assim conversava com as pessoas como se fosse gente: Ela entendia as palavras e nós entendíamos seus mugidos, comia nas nossas mãos, era nossa melhor amiga, uma amiga e tanto! A gente sabia quando ela mugia de alegria, de saudade ou quando queria pedir alguma coisa

Não havia outra solução. Teve de ser vendida.

 “Vendida como se vende uma saca de feijão! Negociada, assim, como um par de botinas, um chapéu! Como pôde o pai chegar ao ponto de mandar embora em troca de dinheiro um ser que respirava, que tinha sentimento e coração...?”


Lá pelo início da tarde apareceu na propriedade um sujeito com ar de jagunço. Conversou rapidamente com o pai, passou-lhe um pacotinho de dinheiro recebendo em troca uma corda com a qual envolveu o pescoço da Rainha após examina-la por alto. Despediu-se e foi saindo montado num cavalo elegante, segurando a cordinha, puxando a vaquinha.

À família, observando de perto do paiol a partida da amiga mais que de estimação, parecia tratar-se de um funeral.

”Mais triste do que enterro de gente humana” – explicava a vó quando nos falava.

Permaneceram todos imóveis lado a lado, pai, mãe e sete irmãos ombro a ombro assistindo a partida de Rainha cabisbaixa e triste como gente sentindo no peito a dor mais cruel de traição; o pai, estendendo os braços como se possível  envolver mulher e sete filhos lamentava:  

- Igual a ela, nunca mais! Deus que me perdoe, tenha piedade de mim!

O jagunço tinha dificuldade em avançar porque Rainha dificultava a marcha, caminhava resistindo aos trancos dados na corda, empacava arrancando berros do estúpido:
- Vamos, bicho do diabo! Anda, peste!

Que dor ouvir Rainha ser chamada de bicho do diabo, de peste...”

No momento de o comprador e a vaquinha ultrapassarem a porteira, instintivamente todos os irmãos passaram a gritar em conjunto “Adeus, Rainha... Adeus, Rainha...” (não costumavam dizer tchau, era adeus mesmo). A mãe de minha avó aderiu, porém, em vez de adeus dizia “Vai com Deus, Rainha... vai com Deus, filha... filha...”

Ouvindo vozes tão familiares, já transposta a porteira, Rainha, sem compreender que devia seguir em frente a fim de consolidar negócios de homens empacou definitivamente. Virou-se para trás soltando um mugido tão suplicante que “perfurou o coração como se fosse uma punhalada. Uma dor que até hoje dói lá no fundo do peito............................................................................... 
A mãe da avó chorou: “Ah, meu Deus, que pecado, que dor!”

As crianças choraram: “Volta, Rainha, volta...”

Um de meus tios-avôs perguntou: “Vão matar ela, pai?”


O Pai, meu bisavô, tomado por impulso descomunal saiu numa corrida desconjuntada dificultada pelas botinas rotas, atravessou o imenso terreno até alcançar o jagunço que teimava em puxar com violência Rainha, aos gritos de “bicho do diabo!”.

- Calma lá! Pare aí, sô! Me dê cá essa corda e pegue seu dinheiro de volta! A vaca não vai mais!

- Como não vai? – retrucou o comprador irritado – Desistir de negócio ajustado é desonra! Homem de barba na cara não volta atrás depois da palavra dada”

- Pois vá você e a tal de honra pro meio dos infernos! Me dê cá a corda que a Rainha fica!

- E se eu não entregar ela?

- Pois experimente!

Houve discussão acalorada com trocas de insultos, ofensas e até ameaças de morte. Mas a vaquinha ficou. Afinal, ali era o seu lugar.


Rainha viveu muitos anos entre aqueles meus antepassados.

Ela e minha avó se perpetuam em mim.

A primeira porque me foi contada em forma de historia-poesia. A segunda porque foi uma poesia que me contou histórias por muitos anos.

Hoje, em Guarapiranga, Ribeirão Bonito, ninguém conhece essa passagem.

Talvez somente meus irmãos e eu ainda saibamos. Aconteceu há mais de cem anos. E agora retransmito exatamente como nos era contada há mais de cinquenta................


gilbertoleite.sp@gmail.com 

terça-feira, 2 de junho de 2015

Voltas que a vida dá


Garoava. Amparei Helena com meu guarda-chuva até que entrasse no automóvel estacionado um pouco distante de seu portão. Dei a volta por trás do carro, indo me acomodar no meu banco “do motorista”. Ao me ajeitar percebi Helena bem aprumada com a ponta do queixo ligeiramente elevada e desafiante diferentemente de seu jeito costumeiro de se arrumar no assento.
Observei-a curioso em sua postura mais para de bailarina do que para revisora de acabamento de moda feminina, que era sua profissão.
Decifrando meu espanto ela se fez mais enigmática jogando os cabelos para um lado e outro em suaves movimentos mostrando-me rosto e colo nus.  Olhos ansiosos, perguntou-me:
- Então, o que acha?
Um vazio imenso caiu sobre mim, uma espécie de escuridão, enorme aflição. O que haveria para eu achar ?
Senti-me como ao encontrar pessoa com quem se está muito acostumado ou de convívio próximo, de quem não se recorda o nome. Uma tortura nos apunhala, utiliza-se de todos os artifícios mentais e o tal nome não vem. Olha-se para o rosto familiar, ouve-se e a voz conhecida, gestos sabidos, tudo, e o nome se nos esconde. Horrível.
Horrível olhar Helena aguardando resposta para a pergunta “O que acha?”
Paralisei. Inúmeros pensamentos me ocorreram. Nessa situação geralmente o óbvio não clareia nossa consciência. Observei-a o mais possível no mínimo de tempo para responder um inseguro “está bom...”
- Bom? Só isso?
- Bom não: Ótimo – corrigi categoricamente. Está ótimo!
- Ótimo o quê? – insistiu.
- O tom do cabelo – arrisquei. Você retocou...
Helena mudou de postura. Apoiou a mão esquerda sobre o peito; a direita trouxe para bem perto do meu rosto, com o dedo indicador rijo apontando-me de maneira a me indicar haver cometido erro grave:
- Incrível como homem é tudo igual! Cabelo! Ora, cabelo... Tem paciência... Por acaso não é capaz de enxergar isso aqui no meu pescoço?!
Entre o dedo que me avia acusado e o polegar Helena segurou um pequenino objeto dourado dependurado numa delicada corrente no mesmo tom de amarelo. Apontou-o para mim acrescentando:
- De ouro! Comprei há quase uma semana. Esperei até agora para lhe fazer surpresa. Me preparei para você, passei horas examinando o caimento antes de vir encontra-lo e me diz que mudei o tom do cabelo! Não tem a menor sensibilidade.
Não pude responder. Não devia. Há erros que não se pode querer reparar. Contive-me em lamentar silenciosamente esse meu jeito desligado de não observar detalhes. Mulheres são perfeitas na arte de saber observar e ver, infinitamente melhores que homens. Se, por exemplo, um pequeno pelo ciliar escapa do olho e repousa sobre a camisa, ainda que escura, a mulher de longe o percebe. Um fio de linha de um só milímetro que fuja para fora do orifício do botão da camisa, ainda que da mesma cor do tecido, ela vê. Homens não enxergamos essas coisas. Não vemos detalhes mínimos. Somos imperfeitos nesse ponto.
Todas as vezes em que olhei os olhos de Helena jamais reparei nessas coisas pequenas, se estavam bem pintados, retocados com qual cor. Mulheres veem isso. Eu não via, para mim olhos de Helena eram janelas por onde se manifestava seu espírito. Era-me muito importante que estivesse espiritualmente bem. Isso eu enxergava através de seus olhos. Nunca fiz conta se estavam coloridos, borrados ou –como ela dizia – “lambidos”.
A boca de Helena era a porta do coração. Se sorria o coração estava feliz e isso é que me fazia também feliz. Se a voz ocorria brilhante indicava que também brilhava o coração. O batom para mim tinha importância menor, talvez nenhuma.
Sua pele era o mesmo que pétalas são para as flores: Revelam o viço quando lhes bate luz, ou se lhes caem o orvalho em minúsculas gotas para mais tarde resplandecerem em vários tons de arco-íris. Arco-íris era o que eu via espargir da pele de Helena, nunca defeitos.
O pescoço e o colo de Helena eram para beijar, acariciar com as mãos. Não os entendia como suporte de ostentar enfeites artificiais, ela não necessitava disso, Helena era a beleza. Maior e mais importante que qualquer miudeza com que se possa desejar valorizar o corpo.
Eu sabia disso. Ela não me compreendia.
Com a ponta do indicador que me acusara apertou bem o centro do meu peito acrescentando:
- Você tem de se corrigir, deve prestar mais atenção em detalhes; toda a graça reside nos detalhes, em coisas mínimas, pequenos objetos... Procure viver mais atento para não perder situações valiosas da sua vida! Percebe que este momento podia ter sido mágico e o seu descuido desencantou tudo?
Percebi. Lamentei silenciosamente estar errado. Odiei meu jeito distraído e desejei profundamente mudar, ser melhor observador.
Seguimos pensativos para o nosso destino: jantar com vinho tinto suave e depois a longa noite como havíamos pactuado ainda que não verbalmente.
Pelo fim da madrugada quando parei o carro para Helena descer em frente ao seu prédio, sentenciou-me decidida:
- Não posso negar que a noite foi boa. Por outro lado não devo esconder também que começou de forma decepcionante e ainda tenho alguma coisa engasgada aqui dentro me incomodando muito. Não sei explicar, mas sinto que poderíamos nos dar um tempo...
- Qual o significado de dar um tempo, para você?
- Eu quero pensar melhor. Você também poderia aproveitar para reciclar sua visão das coisas.
- Um tempo - repeti - que pode ser curto, longo ou eterno. Está bem. Se é necessário, concedamo-nos.
Não afirmo que me esqueci de Helena, não seria verdade. A separação fora brusca e não alinhavada como deveria ter sido decisão tão crucial.

Passaram-se sete meses da separação. 
Quando outubro se esvaia quente e florido decorado ainda mais pelos pássaros, abelhas e borboletas, alguém deixou em minha caixa de correio um envelope contendo um bilhete à moda de antigamente, manuscrito a caneta esferográfica. Descobri-o uns dias após ter sido lá posto (estava datado e havia outros papéis de propaganda por cima). Nele Helena dizia que "hoje percebo quanto me precipitei (...) ninguém é  perfeito nem está livre de erros, cada um tem seu jeito de ser (...) sabe que ainda moro no mesmo endereço, o telefone é o mesmo (...) e eu mudei um pouco"
Pensei em procura-la. Pensei muito. Refleti também que não seria justo por já estar me envolvendo com Débora. 
Respondi também por escrito a mão.
A partir de então nasceu algo diferente em nós, uma amizade suave, livre e libertadora alimentada por cartas através das quais nos abríamos de coração. Nossas impressões carregadas pela energia dos corações nas mãos chancelavam os sentimentos e a veracidade contidos nas palavras. Depois, com o passar do tempo, aderimos à modernidade eletrônica deixando de lado as canetas de esfera e tinta pastosa sem nunca nos afastarmos da lealdade nas palavras.
Helena tinha um hábito interessante. Toda vez que me escrevia principiava descrevendo sua aparência e a forma como se apresentava: "hoje estou usando uma corrente de prata, uma blusa lilás..." ou "Estou usando um par de brincos com formato de flor e uma minúscula pedrinha brilhante no centro de cada um..." Ainda: "O anel, hoje, é o de pedrinha vermelha; como está calor uso uma regata branca de algodão..."
Todas as correspondências vinham assim. Penso que já sabia de cor todas as peças de bijuterias e joias que ela guardava em delicada caixinha de madeira presenteada pela bisavó, trazida de Portugal. Assim como sabia todas as peças de suas roupas tantas vezes descritas nas linhas prefaciais das mensagens.
Acredito, tivéssemos vivido juntos não saberíamos tanto um do outro quanto nos foi possível conhecer através dos escritos.
Helena mudou de cidade. Concluiu licenciatura. Foi brilhante no curso de mestrado e por ocasião da aproximação da solenidade de encerramento, sete anos e meio após a primeira mensagem deixada em um fim de outubro na minha caixa de correspondência, mandou-me convite impresso acompanhado de um bilhete que, por tê-lo também guardado como todas as cartas e mensagens que dela recebi, poderia reproduzir na íntegra. Como a totalidade não é conteúdo para vir a público exponho apenas alguns fragmentos:
"(...) agora uso apenas os brincos em forma de coração, a camisa xadrez de Campos do Jordão e jeans, não quis me emperiquitar toda; afora os brincos excluí todos os penduricalhos e brilhos, estou me sentindo nua... (...) quero estar bem simples e bonita no dia da cerimônia (...) Ah, importante: a aliança também deixei de usar, dela ficou somente a marquinha no meu dedo, você verá e se desejar poderá acompanha-la até desaparecer”  

gilbertoleite.sp@gmail.com

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Mãe

Eram uns olhos grandes, brilhantes, sempre a falar de perdão, fraternidade e bem. Não se cansavam de olhar para os céus onde conseguiam desvendar arcanjos e querubins a zelar pelo dono do Olhar Maior.

Eram mãos macias e carinhosas sempre a cuidar das costuras, das linhas, da casa, dos filhos, e nos intervalos, justapostas, punham-se em profunda devoção a falar com os olhos do Olhar Maior. Eram mãos muito firmes nessas horas de sintonizar com o Pai que, atento, certamente haveria de cuidar dos apelos que nasciam do coração.
Era um coração firme, valente, corajoso e bom, a amar e aceitar todos os desígnios que vinham da morada além das nuvens e das constelações. Coração que jamais se abateu nas mais dolorosas tragédias, nas lutas e perdas, nos desenganos e perdas, nos medos e perdas, nas ingratidões e perdas, na solidão... Um coração que batia com a força da fé e da certeza. A mesma força dos brilhos dos olhos, da energia das mãos.
Era uma voz que entoava as mais lindas melodias quando nos falava, ensinava, prevenia, acautelava... Voz que não havia igual na harmonia das notas de louvores endereçadas ao  Criador e seus anjos e santos e almas bem-aventuradas...  Voz-doçura, voz-ternura de mãe dos filhos seus, de catequizadora dos outros filhos dos outros, portanto, também de Deus.
Era um corpo esguio, incansável – mães não cansam!- a caminhar apressado em busca do bonde lotado, trabalhar inabalável por dez ou doze horas, voltar à noite no mesmo bonde aglomerado e depois caminhar, caminhar, caminhar até alcançar a maçaneta da porta de casa. Era um corpo incansável que, ainda à noite, curvava-se sobre a máquina de costura doméstica para melhorar a renda que sustentaria os filhos, até que chegasse a madrugada, para levantar-se ainda na mesma madrugada e voltar a procurar o mesmo bonde do dia anterior e de todos os dias posteriores até que a saúde lhe permitisse.
Era uma memória privilegiada. Sabia de cor os salmos, livros, capítulos e versículos; estrofes e versos dos mais comoventes hinos de glórias, aleluias e louvores.
Era uma alma grata, piedosa, amorosa e santa. Sempre em comunhão com o Criador, seu guia e mestre e Luz.
Era um tempo que se perdeu no fio da vida.
Era uma vida íntegra que  deixava lindos exemplos no curso do tempo.
Hoje, olho para os mesmos olhos e os vejo opacos sem poderem mais distinguir figuras, letras, fisionomias, nem mesmo as imagens das divindades que tanto venerou de joelhos e mãos postas. Quero de volta a luz, sinto saudade dos brilhos, mas esses olhos há muito tempo não os apresenta mais. A dureza da vida passada os faz sombrios a cada dia mais.
Quero apertar as mãos enérgicas, firmes, porém não as sinto mais: são mãos de uma fragilidade incompatível com aquelas que além de orar com vigor, embalaram-me e aos meus irmãos e netos ao som de cantigas de ninar e, depois, nos guiaram nos primeiros e em todos os passos da vida. Quero toma-las firmemente entre as minhas, entretanto bate-me o receio de maltrata-las que, já de tão fracas nem mais a tigelinha de sopa conseguem segurar.
Ouço às vezes o ruído irregular da respiração débil e percebo que o coração inabalável e corajoso vai perdendo ritmo, desejando repousar.
Coração cansado não empurra o ar. A voz não sai. Tento decifrar mas há vezes em que no lugar da voz acontecem apenas sopros levemente sonorizados, sem articulação. Não consigo... E penso: Onde a voz brilhante de mulher corajosa, dos cânticos de louvor? Onde? Por quê?
O Corpo esguio e incansável uma cadeira o sustenta. De rodas.
Não há mais bonde à sua espera, não há mais jornadas de dez, doze horas, não há mais costuras na madrugada. Não há mais passos apressados para não perder a missa, para ir à feira, passar nossas roupas, preparar o alimento, arrumar a casa, cuidar do cachorro, do quintal... Há sim uma cadeira de rodas que não obedece aos seus desejos de ir e vir, mas tão-somente os de quem a leva e traz.
A memória enfraquecida e confusa confunde ou apaga nomes, rostos, datas, orações.
Observando minha mãe nesse estado ingrato, lembro-me duns versos de Castro Alves:

Deus! Ó Deus! Onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes?

Observando-a nesse estado ingrato chego a imaginar que mães são deuses aqui na Terra e, para lá do infinito, nada mais há além de utopias.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Baratas





Há pouco uma barata bisbilhoteira quase colocou em estado de comoção a funcionária da limpeza que cuida de meu escritório. Em pânico, ela, a funcionária, entrou aos gritos: “Mata ela! Mata ela!”
Batendo o pé ao lado do bicho assustado fui fazendo com que se afastasse até atingir o jardim.  

É interessante como o medo de tal inseto se instalou na humanidade. A psicologia tem suas explicações, eu nunca procurei estudar o porquê ou os porquês embora compreenda pessoas que sentem pavor. Intriga-me, mais que o medo do inseto, o prazer que alguns sentem em matá-lo ou vê-lo morto.

Lembrei-me imediatamente de uma madrugada em um acampamento perto da cidade de Monte Sião, bem ao sul de Minas Gerais: Estávamos Paulo, Glória, Gilka, Amélia e eu, despreocupado quinteto ao redor da fogueira na noite fria de junho de um ano já diluído há muito no tempo.  Falávamos, recordo-me bem, da possível inexistência de uma estrela que ainda brilhava mesmo morta. Não existia e brilhava, calculávamos! 
Discutíamos quando uma barata incomodada com o calor da fogueira pôs-se a atravessar o nosso espaço completamente desorientada.  Amélia e Gilka gritaram. Glória encolheu-se arrepiada elevando os pés sobre a banqueta. Paulo, como a colaboradora da limpeza, me ordenou: "Mata! Mata!"
Levantei-me e pus-me a expulsar a intrusa, como fiz há pouco com sua parente que rondava o escritório.  
– Saia daí, você vai se queimar!
Assim que ela se afastou, a estrela que brilhava mesmo morta não era mais o assunto. Eu era.
Paulo, debochando, ria ao exclamar: “Ele conversa com baratas! vocês viram? “você vai se queimar!” – imitava.
Glória: “Desse tamanho e não tem coragem de pisar num inseto...”
 Mais tarde, ao afastar-me com Amélia para nossa tenda ao fundo fui refletindo sobre alguns significados da cena passada. Compreender Paulo implicava conhecer o que ele entendia por conversar com baratas ou o que lhe significava conversar, e, ainda, o que representava para ele uma barata. Já Glória se fez clara: “desse tamanho e não tem coragem”. Mas faz tempo. Foi no século passado. Aquele episódio nem me importa mais. Do grupo, do acampamento, da barata e da fogueira só restaram o brilho da estrela morta e minha recordação.
Agora, ainda vejo a funcionária desconfiada de minha sanidade. Deve estar imaginando o mesmo que Paulo e Glória pensaram um dia: “Fala com baratas! Não tem coragem de matá-las”

Não me importo com o que possam pensar a esse respeito, não  vejo heroísmo no ato de pisar sobre um inseto; baratas  são indefesas, frágeis, tolas.  Não há virtude nem coragem, qualquer que seja o significado de virtude e de coragem, em esmagar voluntariamente um bicho, ele é um ser vivo, com o mesmo direito que o meu ao oxigênio, à comida, ao espaço.
Quando afirmei acima, da noite em que contávamos estrelas, que a barata invadiu nosso espaço, sugerindo subliminarmente que ele pertencia a nós humanos, foi um artifício de linguagem; acreditar que o território fosse exclusivamente nosso e que um inseto nele seria um invasor consistiria erro grave.
A ideia de propriedade ou direito sobre um território já amadurecera claramente em mim muito antes daquele momento distante embora, nesse sentido, insetos nunca tenham me preocupado. Para eles não há invasão porque não existe divisão, o espaço é de todos os seres.

Desde que perdi o medo de escuro e dos monstros que povoam a mente de crianças, sempre que me deparo com um desses bichos procuro encaminhá-los ou devolvê-los ao lugar de onde possivelmente tenham saído: um ralo, um bueiro, uma touceira de capim ou um arvoredo.
Se eliminar uma barata não acabarei com a existência delas: são trilhões no mundo. Se exterminasse uma ou todas elas estaria cometendo um crime ecológico.
Ainda que exterminar baratas não seja considerado crime ou ato violento, eu, desculpem-me, devo confessar que gosto delas, tanto quanto dos pássaros, peixes, macacos, cães... Somos filhos da mesma origem. Contemos os mesmos elementos químicos e a mesma vontade inicial da Criação.

Gilberto Leite