quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Prece para meu cão




Entre a velha e desativada estação de trem e o bairro da Independência havia uns cinco quilômetros de estrada dos quais pelo menos quatro em terra batida.

Eu morava em um bairro novo perto da estação e me habituei a percorrer a pé a estrada para a Independência várias vezes por semana. Ida e volta.

Piolho, meu cão, era companheiro inseparável naquelas andanças. Seus pelos negros sempre voltavam encardidos, avermelhados de poeira, exigindo sempre uma boa escovada e banhos regulares de mangueira e xampu, quando voltavam a reluzir.

Havia uma pedra no caminho.

No caminho havia uma pedra.

Nela eu me sentava, tirava a garrafinha d’água do bolso para servir carinhosamente meu amigo que bebia na minha mão em concha. Dava-lhe também uns biscoitos que sempre levava para tornar nossos passeios mais agradáveis.

Depois do descanso e da ligeira refeição, Piolho saía em disparada à frente. Fazia meia volta perto do pontilhão sobre a linha do trem que ia para Taubaté e voltava ao meu encontro. Repetia a brincadeira algumas vezes até se cansar e me esperar sentado antes da linha férrea. Por algum motivo ele sabia que não devia ultrapassa-la sozinho. Era instintivo. Sempre me esperou para atravessarmos juntos. Nunca o ensinei. Acho que cães também têm seu inconsciente coletivo.

Visitávamos meus sobrinhos, brincávamos com eles e voltávamos serenos como as tardes que caíam sobre nós.

No caminho havia uma pedra.

Novamente sentávamos para a água e biscoitos.

Depois do descanso e da refeição, Piolho corria à frente, agora na direção da pista asfaltada mas não a atravessava. O inconsciente coletivo lhe dizia que era perigoso. Fazia meia volta e vinha ao meu encontro. Várias vezes, até cansar.

Quando começamos a sair juntos ele era ainda novo e pequeno, muito pequeno - por isso ganhara esse nome. Nas primeiras vezes levei-o preso a uma coleira longa, com medo de que pudesse se embrenhar pelos caminhos que nasciam da estrada ligando a lugares que eu então desconhecia, e neles se perder.

Com o tempo percebi que a coleira tornara-se desnecessária, abandonei-a. Ele ficou feliz com isso, ganhou mais liberdade, descobriu que podia distanciar-se e voltar, sem sair do meu campo de visão.

A pedra no caminho foi uma escolha dele: Certa vez, tendo me deixado para trás, sentou-se ao pé dela para me esperar. Na volta repetiu o mesmo ato. Nos dias seguintes também.

Foi assim que ela se transformou em nosso ponto obrigatório de parada.

Ele nunca soube, não entenderia; ninguém soube, jamais disse que a denominei “Pedra do Piolho”. Até hoje existe o registro em minha memória.

Foram muitas, muitas caminhadas.

Houve um dia em que meu amigo não quis me acompanhar. Recusou meu convite, não se interessou mesmo vendo-me encher o bolso de biscoitos.

Refleti e me lembrei de que em dias anteriores ele havia parado muitas vezes no caminho e, também, ultimamente, não dava mais aquelas corridas esticadas até o pontilhão ou à beira da via asfaltada. Andava cansado.

Fiz um carinho em sua cabeça e parti sozinho. Senti muito sua falta no percurso. O sentimento era o de estar mutilado, faltava uma parte em mim.

Piolho não andou mais comigo pela estrada para a Independência. Havia envelhecido sem que eu houvesse percebido, não aguentava mais a distância.

Passei a ir de carro para poder não me separar do amigo. Ele viajava sentado no banco traseiro olhando a paisagem que tão bem conhecia, mas sem qualquer expressão de alegria. Talvez seus prazeres estivessem se degenerando como em alguns humanos à beira da senilidade.

Entendi que não queria mais sair de casa. Fosse humano dir-se-ia que era depressão e o trataríamos com fluoxetina.

Ficava a maior parte do tempo deitado pelos cantos.

Adoeceu (doença de velhice, disse-me a veterinária).

Um dia - coincidentemente sete de setembro -  ele conquistou sua independência: Estava deitado em meu colo quando o coração parou. Seu último suspiro ficou para sempre em meu antebraço esquerdo. O do coração.

Seu corpo, para a eternidade, sepultado ao lado da “Pedra do Piolho”.

Nunca mais passei pela estrada, preferia dar a volta pelo centro da cidade.

Às vezes, quando rezo, procuro conversar com ele. Acho que me escuta.

Espíritos de cães são mais puros que espíritos de gente, penso eu. Não conhecem maldade. Penso, ainda, que a missão deles é a de alegrar nossos caminhos aqui na Terra.

Por isso rezo por meu Piolho e todos os outros que já passaram por aqui.


Gilberto Leite
gilbertoleite.sp@gmail.com