quarta-feira, 24 de junho de 2015

Uma velha história de amor


 Pessoas e histórias se perpetuam nas memórias de outras pessoas ou em documentos impressos ou de alguma forma registrados enquanto houver quem relembre, ouça ou leia sobre elas independentemente do tempo que houver passado.  A história que narro a seguir não possuía nenhum registro escrito; permanecia solitariamente guardada em minha lembrança; como não acho justo mata-la ao morrer, exponho-a tal como ouvia há muitos anos.


(Existe no interior do Estado de São Paulo uma localidade muito pequena denominada Guarapiranga. É um distrito do também pequeno e aprazível  município de Ribeirão Bonito. Minha história de vida, de certa forma começa ali. Atualmente Guarapiranga não chega a contar 2 mil habitantes; possui algumas ruas bem arrumadas, uma praça ampla, igreja, escola, cemitério, banco, correio, conjunto esportivo mas já foi muito pequena. Há muitos anos não passava de um povoado com algumas famílias de proprietários e trabalhadores rurais vivendo em torno de um armazém e pharmácia cercados por terras de cultivo de café – e outras culturas secundárias – e gado. Naquele tempo, eu soube, a área "urbana" consistia de duas ruas. Melhor: eram duas fileiras de casas razoavelmente distantes umas das outras). 


Foi em Guarapiranga que viveram meus bisavós por parte materna, avó, tios-avós e alguns parentes distantes que não cheguei a conhecer. Creio que hoje lá não haja mais descendentes diretos daqueles meus velhos familiares. Sei de muitos fatos do lugar porque minha avó gostava de nos reunir, meus irmãos e eu, para rememorar seus tempos de infância contando-nos histórias por ela ouvidas ou vividas. Sua voz melodiosa, entonada e profunda desenhava em nossas mentes ora causos  intrigantes atribuídos ao imaginário, ora outros absolutamente reais, tão verdadeiros “como este sol que está alumiando”, dizia-nos .
De todas as histórias ouvidas sobre a vida em Guarapiranga uma das que mais emocionou foi a da Rainha.
Contava a avó, com lágrimas nos olhos, que, por algum motivo que desconhecia, pois ainda era bem menina quando aconteceu, uma enorme dificuldade financeira abateu sobre a família. Por consequência clara inquietação estampou-se nas fisionomias de seus pais, nas quais liam-se indissimuláveis preocupações. Talvez seus irmãos mais velhos compreendessem os motivos, pois também andavam mudados. Ela não, via apenas que a vida e as relações em casa não eram mais como antes. Abundâncias cederam lugar a racionamentos; habituais conversas e cantorias ao pé de todas as noites mudaram para sussurros cautelosos, e nos olhos do pai e mãe caíra um cismar misterioso a avisar a então menina – minha avó – que, simplesmente, as coisas não estavam nada bem.
Naqueles dias houve uma tarde em que o pai saiu para não muito longe, talvez Ribeirão Bonito ou para os lados de Boa Esperança do Sul – ela jamais soube – retornando com o pôr do sol, cansado e com muitas gotas de suor brotando dos poros da testa. Voltou sem palavras. Não quis jantar, não proseou, não tocou viola, não dormiu. Durante a madrugada todos ouviram seus suspiros e gemidos abafados no travesseiro porque haviam todos perdido o sono também. Quem conseguiria adormecer com o velho naquela aflição? A mãe – minha bisavó - cochichava solitária a reza do terço, um mal sinal. Terço se rezava às seis da tarde; fora de hora, inda mais de madrugada, só podia ser coisa ruim.

Coisa muito ruim havia ocorrido ou estava para acontecer em breve!
Amanheceu. Da cozinha exalou o aroma de café passado no coador de pano. Em seguida, à mesa, família reunida, o pai de minha avó, em vez de recitar a oração da manhã como agradecimento pela noite passada, pelo alimento, e mais um dia a viver, em vez disso coçou o rosto, baixou o olhar, pigarreou inseguro e anunciou:
-  Não fiquem zangados com o pai, pois eu tive de fazer algo muito doloroso, a vossa mãe já ficou sabendo... Hoje virá aqui um homem buscar a Rainha... tive de vender ela que era a única “coisa” de valor que nos restava, então, com o dinheirinho que entrar a gente começa a acertar a vida. Perdoem o pai...
"Rainha - dizia contundente minha avó - não era uma coisa. Nem tampouco um exemplar. Não era uma cabeça de gado, um animal qualquer. Era como que parte da família." Não vivia no curral mas à beira da porta da cozinha, às vezes metia a cabeça para dentro da janela como criança curiosa. Ela era quem dava o leite de todas as manhãs para a família e a quem mais se chegasse para um café com pão de milho e broa de fubá e queijo vindo também dela, e parecia tanto saber disso que seu leite especialmente “caprichado” era o que de melhor havia por todas as redondezas. Não recebera esse nome – Rainha - por acaso, era mais que “de estimação”, mais que uma princesa.
“Rainha só faltava falar e ainda assim conversava com as pessoas como se fosse gente: Ela entendia as palavras e nós entendíamos seus mugidos, comia nas nossas mãos, era nossa melhor amiga, uma amiga e tanto! A gente sabia quando ela mugia de alegria, de saudade ou quando queria pedir alguma coisa

Não havia outra solução. Teve de ser vendida.

 “Vendida como se vende uma saca de feijão! Negociada, assim, como um par de botinas, um chapéu! Como pôde o pai chegar ao ponto de mandar embora em troca de dinheiro um ser que respirava, que tinha sentimento e coração...?”


Lá pelo início da tarde apareceu na propriedade um sujeito com ar de jagunço. Conversou rapidamente com o pai, passou-lhe um pacotinho de dinheiro recebendo em troca uma corda com a qual envolveu o pescoço da Rainha após examina-la por alto. Despediu-se e foi saindo montado num cavalo elegante, segurando a cordinha, puxando a vaquinha.

À família, observando de perto do paiol a partida da amiga mais que de estimação, parecia tratar-se de um funeral.

”Mais triste do que enterro de gente humana” – explicava a vó quando nos falava.

Permaneceram todos imóveis lado a lado, pai, mãe e sete irmãos ombro a ombro assistindo a partida de Rainha cabisbaixa e triste como gente sentindo no peito a dor mais cruel de traição; o pai, estendendo os braços como se possível  envolver mulher e sete filhos lamentava:  

- Igual a ela, nunca mais! Deus que me perdoe, tenha piedade de mim!

O jagunço tinha dificuldade em avançar porque Rainha dificultava a marcha, caminhava resistindo aos trancos dados na corda, empacava arrancando berros do estúpido:
- Vamos, bicho do diabo! Anda, peste!

Que dor ouvir Rainha ser chamada de bicho do diabo, de peste...”

No momento de o comprador e a vaquinha ultrapassarem a porteira, instintivamente todos os irmãos passaram a gritar em conjunto “Adeus, Rainha... Adeus, Rainha...” (não costumavam dizer tchau, era adeus mesmo). A mãe de minha avó aderiu, porém, em vez de adeus dizia “Vai com Deus, Rainha... vai com Deus, filha... filha...”

Ouvindo vozes tão familiares, já transposta a porteira, Rainha, sem compreender que devia seguir em frente a fim de consolidar negócios de homens empacou definitivamente. Virou-se para trás soltando um mugido tão suplicante que “perfurou o coração como se fosse uma punhalada. Uma dor que até hoje dói lá no fundo do peito............................................................................... 
A mãe da avó chorou: “Ah, meu Deus, que pecado, que dor!”

As crianças choraram: “Volta, Rainha, volta...”

Um de meus tios-avôs perguntou: “Vão matar ela, pai?”


O Pai, meu bisavô, tomado por impulso descomunal saiu numa corrida desconjuntada dificultada pelas botinas rotas, atravessou o imenso terreno até alcançar o jagunço que teimava em puxar com violência Rainha, aos gritos de “bicho do diabo!”.

- Calma lá! Pare aí, sô! Me dê cá essa corda e pegue seu dinheiro de volta! A vaca não vai mais!

- Como não vai? – retrucou o comprador irritado – Desistir de negócio ajustado é desonra! Homem de barba na cara não volta atrás depois da palavra dada”

- Pois vá você e a tal de honra pro meio dos infernos! Me dê cá a corda que a Rainha fica!

- E se eu não entregar ela?

- Pois experimente!

Houve discussão acalorada com trocas de insultos, ofensas e até ameaças de morte. Mas a vaquinha ficou. Afinal, ali era o seu lugar.


Rainha viveu muitos anos entre aqueles meus antepassados.

Ela e minha avó se perpetuam em mim.

A primeira porque me foi contada em forma de historia-poesia. A segunda porque foi uma poesia que me contou histórias por muitos anos.

Hoje, em Guarapiranga, Ribeirão Bonito, ninguém conhece essa passagem.

Talvez somente meus irmãos e eu ainda saibamos. Aconteceu há mais de cem anos. E agora retransmito exatamente como nos era contada há mais de cinquenta................


gilbertoleite.sp@gmail.com