segunda-feira, 13 de abril de 2015

Mãe

Eram uns olhos grandes, brilhantes, sempre a falar de perdão, fraternidade e bem. Não se cansavam de olhar para os céus onde conseguiam desvendar arcanjos e querubins a zelar pelo dono do Olhar Maior.

Eram mãos macias e carinhosas sempre a cuidar das costuras, das linhas, da casa, dos filhos, e nos intervalos, justapostas, punham-se em profunda devoção a falar com os olhos do Olhar Maior. Eram mãos muito firmes nessas horas de sintonizar com o Pai que, atento, certamente haveria de cuidar dos apelos que nasciam do coração.
Era um coração firme, valente, corajoso e bom, a amar e aceitar todos os desígnios que vinham da morada além das nuvens e das constelações. Coração que jamais se abateu nas mais dolorosas tragédias, nas lutas e perdas, nos desenganos e perdas, nos medos e perdas, nas ingratidões e perdas, na solidão... Um coração que batia com a força da fé e da certeza. A mesma força dos brilhos dos olhos, da energia das mãos.
Era uma voz que entoava as mais lindas melodias quando nos falava, ensinava, prevenia, acautelava... Voz que não havia igual na harmonia das notas de louvores endereçadas ao  Criador e seus anjos e santos e almas bem-aventuradas...  Voz-doçura, voz-ternura de mãe dos filhos seus, de catequizadora dos outros filhos dos outros, portanto, também de Deus.
Era um corpo esguio, incansável – mães não cansam!- a caminhar apressado em busca do bonde lotado, trabalhar inabalável por dez ou doze horas, voltar à noite no mesmo bonde aglomerado e depois caminhar, caminhar, caminhar até alcançar a maçaneta da porta de casa. Era um corpo incansável que, ainda à noite, curvava-se sobre a máquina de costura doméstica para melhorar a renda que sustentaria os filhos, até que chegasse a madrugada, para levantar-se ainda na mesma madrugada e voltar a procurar o mesmo bonde do dia anterior e de todos os dias posteriores até que a saúde lhe permitisse.
Era uma memória privilegiada. Sabia de cor os salmos, livros, capítulos e versículos; estrofes e versos dos mais comoventes hinos de glórias, aleluias e louvores.
Era uma alma grata, piedosa, amorosa e santa. Sempre em comunhão com o Criador, seu guia e mestre e Luz.
Era um tempo que se perdeu no fio da vida.
Era uma vida íntegra que  deixava lindos exemplos no curso do tempo.
Hoje, olho para os mesmos olhos e os vejo opacos sem poderem mais distinguir figuras, letras, fisionomias, nem mesmo as imagens das divindades que tanto venerou de joelhos e mãos postas. Quero de volta a luz, sinto saudade dos brilhos, mas esses olhos há muito tempo não os apresenta mais. A dureza da vida passada os faz sombrios a cada dia mais.
Quero apertar as mãos enérgicas, firmes, porém não as sinto mais: são mãos de uma fragilidade incompatível com aquelas que além de orar com vigor, embalaram-me e aos meus irmãos e netos ao som de cantigas de ninar e, depois, nos guiaram nos primeiros e em todos os passos da vida. Quero toma-las firmemente entre as minhas, entretanto bate-me o receio de maltrata-las que, já de tão fracas nem mais a tigelinha de sopa conseguem segurar.
Ouço às vezes o ruído irregular da respiração débil e percebo que o coração inabalável e corajoso vai perdendo ritmo, desejando repousar.
Coração cansado não empurra o ar. A voz não sai. Tento decifrar mas há vezes em que no lugar da voz acontecem apenas sopros levemente sonorizados, sem articulação. Não consigo... E penso: Onde a voz brilhante de mulher corajosa, dos cânticos de louvor? Onde? Por quê?
O Corpo esguio e incansável uma cadeira o sustenta. De rodas.
Não há mais bonde à sua espera, não há mais jornadas de dez, doze horas, não há mais costuras na madrugada. Não há mais passos apressados para não perder a missa, para ir à feira, passar nossas roupas, preparar o alimento, arrumar a casa, cuidar do cachorro, do quintal... Há sim uma cadeira de rodas que não obedece aos seus desejos de ir e vir, mas tão-somente os de quem a leva e traz.
A memória enfraquecida e confusa confunde ou apaga nomes, rostos, datas, orações.
Observando minha mãe nesse estado ingrato, lembro-me duns versos de Castro Alves:

Deus! Ó Deus! Onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes?

Observando-a nesse estado ingrato chego a imaginar que mães são deuses aqui na Terra e, para lá do infinito, nada mais há além de utopias.