Joana se deitara com todo tipo de homem, tantos que nem era possível contar.
Um dia, de tanto ouvir a consciência 一dos outros一 resolveu aceitar o convite para a conversão do espírito.
No templo, um representante de Deus pediu-lhe uma certa porcentagem de seus ganhos em troca da salvação. Salvação da alma. Temendo manchar o divino cofre com dinheiro de bordel, Joana confessou ao puro homem de onde vinha seu sustento e como era sua vida.
Em resposta ouviu que "Deus não escolhe cédulas, moedas, cartões de débito ou crédito; não pergunta a origem nem o labor exercido para obtê-los, todas as doações são bem-vindas desde que dadas com fé, e o que importa é o amor com que se oferta".
Encheu-se Joana de alívio e paz; sentiu uma espécie de permissão divina para seus deslizes veniais: "Se meu dinheiro é bom para Deus e os meios pelos quais me vem não são condenáveis, segundo o santo homem, meu ofício não haverá de ser passível de punição".
Saiu feliz, sentindo-se amplamente abençoada, que seu dinheiro não era sujo para Deus. Foi-se sentindo-se aceita, pois concluíra que, no Juízo, o Pai não a julgará pelas obras do corpo, mas avaliará sua alma. Assim entendendo, resolveu não se preocupar com a redenção no interior da igreja mas em obras, esqueceu a conversão, prosseguiu na profissão.
Joana havia sido menina muito pobre, desamparada. Num gesto de verdadeira caridade e amor, há muito, desde que pôde, mantinha paralelamente ao seu trabalho de "vida fácil" um pequeno compromisso de assistência a crianças e mulheres da rua , viadutos, vielas e abandono.
Foi por isso que ela e eu nos conhecemos.
Um dia ela me falou de sua vida, e assim eu soube o que agora conto aqui.
Estávamos em tempo de Natal. Meu grupo e eu caminhávamos pela noite perigosa, em apoio aos desvalidos, oferecendo-lhes um pouco de alimento fresco. Levávamos também alguns brinquedos para as crianças desamparadas.
Nessa mesma rua escura, pelo lado oposto, vinham três mulheres destemidas enfrentando igualmente a escuridão e seus perigos. Três mulheres benditas e venturosas, que distribuíam doces, bolos e refrigerantes aos mesmos necessitados.
Rimos muito quando nossos grupos se encontraram sob um viaduto da Rua Santo Antonio, na Bela Vista. Uma delas disse ser aquela coincidência uma obra de Deus:
一Vocês dão o salgado e nós a sobremesa... Vocês, brinquedos; nós, refrigerantes... Não é coincidência, é providência. Divina Providência."
Foi Joana quem falou. Aquela Joana que se deitava com tantos homens que nem se podia imaginar. Tornamo-nos amigos.
Joana ganhava bem, dinheiro suficiente e boa sobra todo mês. Puderam, então, ela e duas amigas de profissão juntar-se para levar consolação aos miseráveis. Não em forma de orações, pois as igrejas já estavam repletas de rezadores.
Ela e as duas amigas de profissão alugaram um casarão nos confins do arrabalde. E passaram a acolher mães e crianças desvalidas. Somente elas, as três mundanas de vida fácil.
一Nunca nos visitou um religioso, uma religiosa; jamais uma assistente social. Nem o Governo, nem político. Nem os Direitos Humanos passaram lá.一 disseram-nos.
Mantiveram o abrigo até quando lhes foi possível. A vizinhança se opôs.
A casa cheia de mulheres e moleques de rua importunou a puritana vizinhança. Imaculada vizinhança que, com ajuda de autoridades púbicas, os expulsou de lá.
No dia de irem embora 一elas, as mães e as crianças一 não havia um religioso, uma religiosa; não esteve uma assistente social. Nem o Governo, nem político. Nem os Direitos Humanos passaram lá.
Joana e as duas amigas de profissão seguem a vida de bordel. Entretanto, duas vezes por semana, religiosamente, vão às ruas à noite visitar seus desabrigados, desvalidos, desgraçados. Sem patrocínio de ninguém. Usam apenas as sobras do dinheiro que ganham por abrir as pernas a tantos homens que nem é possível contar.
Joana já passou dos quarenta anos há um bom tempo, mas se mantém tão em forma que ainda permanece no ofício. Seu filho mais velho em breve irá se formar em Tecnologia da Informação. A filha do meio pretende trabalhar na área de Gestão de Recursos Humanos. A menor quer ser enfermeira 一 e será, afirma convicta.
Não sei se os filhos têm conhecimento das atividades dela. Sabendo ou não, devem sentir orgulho da mãe Joana, sem trocadilho.
Não faz diferença ser filho de santa ou filho de puta como Joana.
Beatitude é bênção que Deus derrama sobre quem tem bom coração. Joana e suas duas amigas estão, em vida, beatificadas pelos desvelos aos pobres desvalidos, e santificadas pelo mesmo Deus que criou mulheres puras e putas.
Bem-aventuradas sejam todas as mulheres boas de espírito.
Amadas sejam, façam o que fizerem. Hoje e sempre por todos os séculos dos séculos.
Gilberto Leite
gilbertoleite.sp@gmail.com

