Se existe destino no sentido da fatalidade que a expressão carrega em si, eu diria que a vida de Sandra e a minha foram entrelaçadas por obra de um desígnio, não com o significado que a etimologia lhe confere, mas como imposição de uma vontade superior e metafísica.
* * *
Naquele tempo havia um córrego que descia irrequieto de algum ponto da Serra da Mantiqueira, cantante, borbulhante sobre as pedras expostas de seu leito raso. Serpenteava como um menino alegre a correr incansável fazendo milhares de rodeios por entre o arrozal e a vegetação natural que se estendia na parte baixa das terras de propriedade da família de Sandra. Depois, em algum ponto incerto do Rio Paraíba, talvez lá pelos arredores de Lorena ou de Cachoeira, seria engolido impiedosamente deixando de ser um córrego para sempre. Mesmo o rio, bem mais adiante, tragado pelo oceano jamais voltaria a ser rio. Águas passadas não voltam nunca mais ao mesmo lugar. Todas as águas existentes são e serão sempre outras; nunca as mesmas.
Na parte alta da propriedade cresciam árvores ornamentais e frutíferas, principalmente caquizeiros; erguiam-se ali, três elegantes casas grandes e, mais acima, outras três menores, todas bem cuidadas, com vista para o arrozal e a serra; entre as três primeiras, um imenso terreiro ornamentado por jardins multicoloridos onde gansos, marrecos e vários cães vira-latas poeirentos corriam em festa; no espaçoso derredor duas éguas negras nos encantavam com seus galopes como se exibissem a elegância e o brilho de suas pelagens. Sandra as amava. Chamava-as de irmãs, e de "meus filhotes" os cães e aves.
Esse terreiro fora preparado para a celebração da vida e das alegrias. Nele aconteciam as grandes festas, almoços ao ar livre e reuniões da família; reuniam-se ainda os amigos do partido político em seus momentos de articulações. Também os discretos confrades da maçonaria vez ou outra usufruíam do magnífico espaço.
Havíamos comemorado alguma coisa - lembro-me de um ligeiro festejo -, contudo, a noite avançara muito. Deixamos de tocar violão. Os pais e irmãs de Sandra se recolheram para o repouso. Ela e eu permanecemos deitados numa rede, envolvidos por um lençol impregnado de leve perfume, admirando a linda e gigantesca lua azul a derramar luz sobre os misteriosos despenhadeiros da serra ao fundo.
Trabalháramos juntos na mesma empresa multinacional havia pouco tempo, e lá nascera nossa amizade. Sandra, entretanto, sempre frágil, tivera sua doença agravada e afastou-se em definitivo do trabalho. Nossos encontros, então, passaram a acontecer em sua casa na cidade ou na fazendinha ao pé da Mantiqueira, apenas nos finais de semana.
Naquela noite de lua azul, quando ficamos sós, Sandra abraçou-me fortemente, olhando a paisagem por cima de meu ombro. Após um suspiro profundo, murmurou com voz melancólica: “não acredito que esse remédio novo sobre o qual o doutor Artur tem falado ao meu pai possa representar a cura para o meu caso... já apareceram tantos tratamentos milagrosos e todos deram em nada”
O doutor Artur era um médico jovem, pouco mais velho que nós que nos aproximando dos trinta anos. Se Sandra não estivesse doente, ele seria um forte interessado em arrebatá-la de mim. Considerando que talvez ela não fosse muito longe, tudo o que se lia nos olhos dele era o desejo de impressionar com seu jeito de bom moço e, quem sabe, tirar o máximo proveito de sua paciente. Proveito no pior sentido que a expressão possa sugerir, já que as vantagens financeiras eram acumuladas pelo médico oficial do tratamento, o doutor Evilásio. Um homem sabe muito bem ler as intenções de outro. Essas são duas das razões pelas quais passei a não gostar de médicos. Outras, agora, não vêm ao caso.
A nova droga que entusiasmava o jovem médico não havia ainda no Brasil a não ser por contrabando, nem se sabia se chegaria aqui oficialmente e com que nome. No exterior chamava-se Interferon. Não imaginávamos que, em menos de seis meses, a televisão e a imprensa fariam uma grande publicidade do novo remédio então milagroso, e que hoje é utilizado normalmente em terapias para doenças como a dela.
Artur tentava convencer o pai de Sandra a deixa-la ir com ele para a Suíça; lá o medicamento estava sendo liberado, e lá ele pretendia fazer uma especialização..
Olhando por cima de meu ombro ela continuou: “Seria muito bom se fôssemos como a Bela e a Linda, ou os cães, que não conhecem a morte. Os animais não temem a aproximação do fim porque o desconhecem”.
Silenciei-me. Tudo o que eu pudesse dizer já havia dito antes.
Sandra prosseguiu: “... também é diferente ter consciência de que se é finito, e que o momento extremo já está nos tomando pela mão. Eu o pressinto a cada ação, sei como será... Sei a que equipamentos estarei ligada, que tubos me manterão em funcionamento até não poderem mais..."
Apertamo-nos.
Impotente, incapaz, sugeri: “ quem sabe se o tratamento na Suíça poderá lhe devolver a saúde definitivamente? Você tem muita energia, muita vida...”
"Viver é ser riacho" disse-me ela tão tristemente que me soou poético, embora eu não tivesse compreendido de imediato. Percebendo que não fora clara, completou: "lá no fim do curso deve haver um pequeno delta onde o riacho se tornará adolescente, ou haverá um desnível por onde deslizará ou se precipitará feito uma pequena cachoeira que lhe mostrará a liberdade. Entretanto, delta ou cachoeira será o fim... Por ser riacho ele corre indiferente; simplesmente desliza sem precisar saber o que haverá adiante, apenas flui. E vida deveria ser somente fluir... Vida não é lutar como eu tenho feito, estou cansada, quase desistindo do percurso..."
Calamo-nos. A lua azul iluminava seu rosto pálido. Com a brisa forte as folhagens das árvores sussurravam sobre nós. Um galo cantou ao longe. Sandra retomou:
- Você já ouviu falar das pessoas que entram no túnel da morte e por algum motivo voltam a viver trazendo lembranças do que aconteceu nessa passagem? São as chamadas experiências de quase morte. Todos os que a enfrentaram relatam que há luzes no fim do túnel, algo incrível que os atrai, mas acabam voltando, geralmente contra a vontade, pois dizem que a visão é arrebatadora. Comigo acontece o contrário. Não há sequer entrada para um túnel que eu possa percorrer até ver a luz, existe uma imensa muralha que me avisa que ali é meu limite, dali não passarei. Teoricamente somos iguais, eu e você, pois também respiro, me alimento, durmo, sinto frio e calor, amo, tenho meus compromissos... Mas a isso tudo não posso chamar de vida. Eu diria que é uma expeeriência de quase vida. Não, não sou como você e os demais, eu quase vivo... Vida é ser riacho, cão, égua, árvore, ave...
Adormecemos juntos na rede. Sua respiração aquecia meu rosto.
No meio da madrugada percebi que ela estava ficando muito fria, sem que a temperatura ambiente justificasse. Falei com ela, que mal conseguiu me responder.
Por conhecê-la bem notei a gravidade da situação. Saltei da rede e corri para o interior da casa grande acordando a todos.
Seu pai colocou-a no carro e fomos rapidamente ao hospital, toda a família. Sandra necessitava de uma nova transfusão, procedimento que vinha tornando-se rotina em sua vida - uma rotina que encurtava mais os espaços entre uma sessão e outra.
O pai dela, como eu disse, também exercia a medicina, porém médicos não fabricam sangue. Para manter um banco de sangue exclusivo e clandestino dentro de um hospital ele desembolsava fortunas, além do que gastava com todo o tratamento. Mais tarde percebi que a “reserva particular” não passava de um negócio ilícito. Contudo, quando um ente amado está passando por uma experiência de quase vida, o que é lícito? O que é ético? Diante de um estado de quase vida caem máscaras, vaidades, moral; perde-se a força, despreza-se o poder e as leis.
Ao sair da transfusão e de um curto período de internação na UTI, Sandra não voltou para casa. Assim como o córrego, estava prestes a entrar no delta ou no desnível.
Apresentava um corpo de postiça altivez. A pele rosada dissimulava a doença a quem não a conhecesse.
Passando pela alfândega do aeroporto, em companhia do doutor Artur, acenou-me. Beijou as pontas dos dedos e com um sopro vigoroso fez o beijo voar até mim.
Eu soube depois que seu pai vendeu mais da metade da fazenda e foi clinicar em outra cidade. O doutor Artur especializou-se em sei lá o quê.
Não faz muito tempo, tive de retornar às proximidades do cenário dessa história. A curiosidade fez com que me desviasse do caminho e me dirigisse à fazenda. O lugar está irreconhecível. Há um novo bairro surgindo, muitas casas já construídas e habitadas.
O córrego não passa mais ali; pode ter sido desviado, canalizado ou simplesmente secou.
Não correm mais gansos, marrecos nem cães vira-latas poeirentos. Não estão mais lá as éguas Bela e Linda. As casas antigas também desapareceram. Então a voz de Sandra ecoou em meu cérebro: "Vida é ser riacho, cão, égua, árvore, ave... Não, não sou como você e os demais...
Olhei em redor e acreditei - ainda acredito - que minha existência também não passa de uma experiência de quase vida. às vezes me sinto como ela: caminhando sem túnel de quase morte, diante de uma imensa muralha.
Gilberto Leite
gilbertoleite.sp@gmail.com