quarta-feira, 8 de abril de 2026

(Para Zélia)

Meu Samba-Enredo inesquecível

"...Enfeitei meu coração de confete e serpentina, minha mente se fez menina num mundo de recordação..." 
Não fosse carnaval eu teria achado exageradamente escandalosa a vestimenta que Zélia usou para o baile. Seu short jeans maliciosamente curto expondo-lhe as pernas  bronzeadas e a camiseta provocantemente cavada nas costas exibindo muito da sua intimidade teriam feito meu ciúme ferver dentro do peito.
Carnaval, entretanto, tem a magia de tornar todo o exagero permitido, e assim Zélia era minha rainha e meus despeitos se desmanchavam como rolos de serpentina atirados ao ar num misto de desprendimento e devaneios.
Seu corpo, úmido do suor que o bailar produz, grudava em minhas mãos também úmidas enquanto a conduzia no incessante girar que a marcação exigia. As gotas do seu rosto escorriam pelo meu - Zélia era alta -, oferecendo-me o delicioso sabor que a excitação exala.
Vozes, surdos, tamborins, metais e multidão ampliavam o calor no salão quase sem espaço para tantos foliões. Nossa quentura corporal abrandávamos com alguns copos de cerveja gelada em cada intervalo.
"...Oh, Praça Onze, tu és imortal; teus braços embalaram o samba..."
A última seleção musical trouxe somente famosos sambas de enredo das melhores escolas de samba do Rio de Janeiro. Zélia, extenuada pelo calor das danças e por nossa excitação, abraçou-me como uma desvairada e cantou ao pé do meu ouvido toda a letra da melodia derradeira "... com reco-reco, pandeiro e tamborim, e lindas baianas, o samba ficou assim..."

Terminado o baile, a madrugada ainda era noite escura pelas ruas calmas de Pindamonhangaba. 
O refrão da melodia derradeira ficou incrustado em minha memória.
Meu corpo impregnou-se com o cheiro de Zélia, para sempre, um odor único de mulher em êxtase.

Caminhamos lentamente exaustos e felizes. Deixei-a no portão de sua casa.
A doce noite-madrugada tão especial não havia ainda clareado e nunca, nunca mais amanheceu em mim. 
Pinda, Zélia e o "bum bum paticumbum prucurundum" ainda hoje repousam em minha saudade como se a qualquer momento pudessem voltar a amanhecer apesar de saber que Pindamonhangaba passou e que Zélia ficou por lá.
E aqui no meu canto, sem carnaval nem namorada de short curto e blusa ousada, não é raro me pegar cantarolando o refrão "vem meu amor, manda a tristeza embora; é carnaval, é folia, neste dia ninguém chora..."

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Voltas que a vida dá



Garoava. Amparei Helena com meu guarda-chuva até que entrasse no automóvel estacionado um pouco distante de seu portão. Dei a volta por trás do carro, indo me acomodar no meu banco de motorista. Ao me ajeitar percebi Helena bem aprumada com a ponta do queixo ligeiramente elevada e desafiante, diferentemente de seu jeito costumeiro de se arrumar no assento.
Observei-a curioso em sua postura mais para de bailarina do que para produtora de moda feminina, que era sua profissão.
Decifrando meu olhar inseguro ela se fez mais enigmática jogando os cabelos para um lado e outro em suaves movimentos, mostrando-me rosto e colo nus.  Semblante ansioso, perguntou-me:
- Então, o que acha?
Um vazio imenso caiu sobre mim, uma espécie de escuridão, enorme aflição. O que haveria para eu achar ?
Senti-me como ao encontrar pessoa com quem se está muito acostumado ou de convívio próximo, de quem não se recorda o nome. Uma tortura nos apunhala, utiliza-se de todos os artifícios mentais e o tal nome não vem. Olha-se para o rosto familiar, ouve-se e a voz conhecida, gestos sabidos, tudo, e o nome se nos esconde. Horrível.
Horrível olhar Helena aguardando resposta para a pergunta “O que acha?”
Paralisei. Inúmeros pensamentos me ocorreram. Nessa situação geralmente o óbvio não clareia nossa consciência. Observei-a o mais possível no mínimo de tempo para responder um inseguro “está bom...”
- Bom? Só isso?
- Bom não: Ótimo – corrigi categoricamente. Está ótimo!
- Ótimo o quê? – insistiu.
- O tom do cabelo – arrisquei. Você retocou...
Helena mudou de postura. Apoiou a mão esquerda sobre o peito; a direita trouxe para bem perto do meu rosto, com o dedo indicador rijo apontando-me de maneira a me indicar haver cometido erro grave:
- Incrível como homem é tudo igual! Cabelo! Ora, cabelo... Tem paciência... Por acaso não é capaz de enxergar isso aqui no meu pescoço?!
Entre o dedo que me avia acusado e o polegar Helena segurou um pequenino objeto dourado dependurado numa delicada corrente no mesmo tom de amarelo. Apontou-o para mim acrescentando:
- De ouro! Comprei há quase uma semana. Esperei até agora para lhe fazer surpresa. Me preparei para você, passei horas examinando o caimento antes de vir encontra-lo e me diz que mudei o tom do cabelo! Não tem a menor sensibilidade.
Não pude responder. Não devia. Há erros que não se pode querer reparar. Contive-me em lamentar silenciosamente esse meu jeito desligado de não observar detalhes. Mulheres são perfeitas na arte de saber observar e ver, infinitamente melhores que homens. Se, por exemplo, um pequeno pelo ciliar escapa do olho e repousa sobre a camisa, ainda que escura, a mulher de longe o percebe. Um fio de linha de um só milímetro que fuja para fora do orifício do botão da camisa, ainda que da mesma cor do tecido, ela vê. Homens não enxergamos essas coisas. Não vemos detalhes mínimos. Somos imperfeitos nesse ponto.
Todas as vezes em que olhei os olhos de Helena jamais reparei nessas coisas pequenas, se estavam bem pintados, retocados com qual cor. Mulheres veem isso. Eu não via, para mim olhos de Helena eram janelas por onde se manifestava seu espírito. Era-me muito importante que estivesse espiritualmente bem. Isso eu enxergava através de seus olhos. Nunca fiz conta se estavam coloridos, borrados ou –como ela dizia – “lambidos”.
A boca de Helena era a porta do coração. Se sorria o coração estava feliz e isso é que me fazia também feliz. Se a voz ocorria brilhante indicava que também brilhava o coração. O batom para mim tinha importância menor, talvez nenhuma.
Sua pele era o mesmo que pétalas são para as flores: Revelam o viço quando lhes bate luz, ou se lhes caem o orvalho em minúsculas gotas para mais tarde resplandecerem em vários tons de arco-íris. Arco-íris era o que eu via espargir da pele de Helena. Defeitos eu não enxergava.
O pescoço e o colo de Helena eram para beijar, acariciar com as mãos. Não os entendia como suporte de ostentar enfeites artificiais, ela não necessitava disso, Helena era a beleza. Maior e mais importante que qualquer miudeza com que se possa desejar valorizar o corpo.
Eu sabia disso. Ela não me compreendia.
Com a ponta do indicador que me acusara apertou bem o centro do meu peito acrescentando:
- Você tem de se corrigir, deve prestar mais atenção em detalhes; toda a graça reside nos detalhes, em coisas mínimas, pequenos objetos... Procure viver mais atento para não perder situações valiosas da sua vida! Percebe que este momento podia ter sido mágico e o seu descuido desencantou tudo?
Percebi. Lamentei silenciosamente estar errado. Odiei meu jeito distraído e desejei profundamente mudar, ser melhor observador.
Seguimos pensativos para o nosso destino: jantar com vinho tinto suave e depois a longa noite como havíamos pactuado ainda que não verbalmente.
Pelo fim da madrugada quando parei o carro para Helena descer em frente ao seu prédio, sentenciou-me decidida:
- Não posso negar que a noite foi boa. Por outro lado não devo esconder também que começou de forma decepcionante e ainda tenho alguma coisa engasgada aqui dentro me incomodando muito. Não sei explicar, mas sinto que poderíamos nos dar um tempo...
- Qual o significado de dar um tempo, para você?
- Eu quero pensar melhor. Você também poderia aproveitar para reciclar sua visão das coisas.
- Um tempo - repeti - que pode ser curto, longo ou eterno. Está bem. Se é necessário, concedamo-nos.

Não afirmo que me esqueci de Helena, não seria verdade. A separação fora brusca. Faltou o alinhavo que uma decisão tão crucial exigia.

Passaram-se sete meses da separação. 
Quando outubro se esvaia quente e florido decorado ainda mais pelos pássaros, abelhas e borboletas, alguém deixou em minha caixa de correio um envelope contendo um bilhete à moda de antigamente, manuscrito a caneta esferográfica. Descobri-o uns dias após ter sido lá posto (estava datado e havia outros papéis de propaganda por cima). Nele Helena dizia que "hoje percebo quanto me precipitei (...) ninguém é  perfeito nem está livre de erros, cada um tem seu jeito de ser (...) sabe que ainda moro no mesmo endereço, o telefone é o mesmo (...) e eu mudei um pouco"
Pensei em procura-la. Pensei muito. Refleti também que não seria justo por já estar me envolvendo com Débora. 
Respondi também por escrito a mão.
A partir de então nasceu algo diferente em nós, uma amizade suave, livre e libertadora alimentada por cartas através das quais nos abríamos de coração. Nossas impressões carregadas pela energia dos corações nas mãos chancelavam os sentimentos e a veracidade contidos nas palavras. Depois, com o passar do tempo, aderimos à modernidade eletrônica deixando de lado as canetas de esfera e tinta pastosa sem nunca nos afastarmos da lealdade nas palavras.
Helena tinha um hábito interessante. Toda vez que me escrevia principiava descrevendo sua aparência e a forma como se apresentava: "hoje estou usando uma corrente de prata, uma blusa lilás..." ou "Estou usando um par de brincos com formato de flor e uma minúscula pedrinha brilhante no centro de cada um..." Ainda: "O anel, hoje, é o de pedrinha vermelha; como está calor uso uma regata branca de algodão..."
Todas as correspondências vinham assim. Penso que já sabia de cor todas as peças de bijuterias e joias que ela guardava em delicada caixinha de madeira presenteada pela bisavó, trazida de Portugal. Assim como sabia todas as peças de suas roupas tantas vezes descritas nas linhas prefaciais das mensagens.
Acredito, tivéssemos vivido juntos não saberíamos tanto um do outro quanto nos foi possível conhecer através dos escritos.

Helena mudou de cidade. Concluiu licenciatura. Foi brilhante no curso de mestrado e por ocasião da aproximação da solenidade de encerramento, alguns anos após a primeira mensagem deixada em um fim de outubro na minha caixa de correspondência, mandou-me convite impresso acompanhado de um bilhete que, por tê-lo também guardado como todas as cartas e mensagens que dela recebi, poderia reproduzir na íntegra. Como a totalidade não é conteúdo para vir a público exponho apenas alguns fragmentos:
"(...) agora uso apenas os brincos em forma de coração, a camisa xadrez de Campos do Jordão e jeans, não quis me emperiquitar toda; afora os brincos excluí todos os penduricalhos e brilhos, estou me sentindo nua... (...) quero estar bem simples e bonita no dia da cerimônia (...) Ah, importante: a aliança também deixei de usar, dela ficou somente a marquinha no meu dedo, você verá e se desejar poderá acompanha-la até desaparecer”  

gilbertoleite.sp@gmail.com

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Prece para meu cão




Entre a velha e desativada estação de trem e o bairro da Independência, havia uns cinco quilômetros de estrada, dos quais pelo menos quatro eram  em terra batida.

Eu morava em um bairro novo perto da estação abandonada e me habituei a percorrer a pé a estrada para a Independência várias vezes por semana. Ida e volta.

Piolho, meu cão, era companheiro inseparável naquelas andanças. Seus pelos negros sempre voltavam encardidos, avermelhados de poeira, exigindo sempre uma boa escovada e banhos regulares de mangueira e xampu, quando voltavam a reluzir.

Havia uma pedra no caminho.

No caminho havia uma pedra.

Nela eu me sentava, tirava a garrafinha d’água do bolso para servir carinhosamente meu amigo, que bebia na minha mão em concha. Dava-lhe também uns biscoitos que sempre levava para tornar nossos passeios mais agradáveis.

Depois do descanso e da ligeira refeição, Piolho saía em disparada à frente. Fazia meia-volta perto do pontilhão sobre a linha do trem que ia para Taubaté e, em seguida, voltava ao meu encontro. Repetia a brincadeira algumas vezes até se cansar e me esperar sentado antes da linha férrea. Por algum motivo ele sabia que não devia ultrapassá-la sozinho. Era instintivo. Sempre me esperou para atravessarmos juntos. Nunca o ensinei. Acho que cães também têm seu inconsciente coletivo.

Visitávamos meus sobrinhos, brincávamos com eles e voltávamos serenos como as tardes que caíam sobre nós.

No caminho havia uma pedra.

Novamente sentávamos para a água e biscoitos.

Depois do descanso e da refeição, Piolho corria à frente, agora na direção da pista asfaltada, mas não a atravessava. O inconsciente coletivo lhe dizia que era perigoso. Fazia meia-volta e vinha ao meu encontro. Várias vezes, até cansar.

Quando começamos a sair juntos ele era ainda novo e pequeno, muito pequeno - por isso ganhara esse nome. Nas primeiras vezes levei-o preso a uma coleira longa, com medo de que pudesse se embrenhar pelos caminhos que nasciam da estrada, ligando a lugares que eu então desconhecia, e neles se perder.

Com o tempo, percebi que a coleira tornara-se desnecessária; abandonei-a. Ele ficou feliz com isso, ganhou mais liberdade, descobriu que podia distanciar-se e voltar sem sair do meu campo de visão.

A pedra no caminho foi uma escolha dele: Certa vez, tendo me deixado para trás, sentou-se ao pé dela para me esperar. Na volta, repetiu o mesmo ato. Nos dias seguintes também. Foi assim que ela se transformou em nosso ponto obrigatório de parada.

Ele nunca soube, não entenderia; ninguém soube, jamais disse que a denominei “Pedra do Piolho”. Até hoje o registro existe apenas em minha memória.

Foram muitas, muitas caminhadas.

Houve um dia em que meu amigo não quis me acompanhar. Recusou meu convite, não se interessou mesmo vendo-me encher o bolso de biscoitos.

Refleti e me lembrei de que, em dias anteriores, ele havia parado muitas vezes no caminho e, também, ultimamente, não dava mais aquelas corridas esticadas até o pontilhão ou à beira da via asfaltada. Andava cansado. 

Fiz um carinho em sua cabeça e parti sozinho. Senti muito sua falta no percurso. O sentimento era o de estar mutilado; faltava uma parte em mim.

Piolho não andou mais comigo pela estrada para a Independência. Havia envelhecido sem que eu percebesse, não aguentava mais a distância.

Passei a ir de carro para poder não me separar do amigo. Ele viajava sentado no banco traseiro olhando a paisagem que tão bem conhecia, mas sem qualquer expressão de alegria. Talvez seus prazeres estivessem se degenerando como ocorre com alguns humanos à beira da senilidade.

Entendi que não queria mais sair de casa. Fosse humano, dir-se-ia que era depressão e o trataríamos com fluoxetina.

Ficava a maior parte do tempo deitado pelos cantos.

Adoeceu (doença de velhice, disse-me a veterinária).

Um dia - coincidentemente sete de setembro -  ele conquistou sua independência: Estava deitado em meu colo quando o coração parou. Seu último suspiro ficou para sempre em meu antebraço esquerdo. O do coração.

Seu corpo, para a eternidade, sepultado ao lado da “Pedra do Piolho”.

Nunca mais passei pela estrada; preferia dar a volta pelo centro da cidade.

Às vezes, quando rezo, procuro conversar com ele. Acho que me escuta. Espíritos de cães são mais puros que espíritos de gente, creio. Não conhecem maldade. Penso, ainda, que a missão deles é a de alegrar nossos caminhos aqui na Terra.

Por isso rezo por meu Piolho e todos os outros que já passaram por aqui.


Gilberto Leite
gilbertoleite.sp@gmail.com

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Minha Mãe




Eram uns olhos grandes, brilhantes, sempre a falar de perdão, fraternidade e bem. Não se cansavam de olhar para os céus onde conseguiam desvendar arcanjos e querubins a zelar por todos nós.

Eram mãos macias e carinhosas sempre a cuidar das costuras, das linhas, da casa, dos filhos, e nos intervalos, justapostas, punham-se em profunda devoção a falar com os olhos do Olhar Maior. Eram mãos muito firmes nessas horas de sintonizar com o Pai que, atento, certamente haveria de cuidar dos apelos que nasciam do coração.
Era um coração firme, valente, corajoso e bom, a amar e aceitar todos os desígnios que vinham da morada além das nuvens e das constelações. Coração que jamais se abateu nas mais dolorosas tragédias, nas lutas e perdas, nos desenganos e perdas, nos medos e perdas, nas ingratidões e perdas, na solidão... Um coração que batia com a força da fé e da certeza. A mesma força dos brilhos dos olhos, da energia das mãos.
Era uma voz que entoava as mais lindas melodias quando nos falava, ensinava, prevenia, acautelava... Voz que não havia igual na harmonia das notas de louvores endereçadas ao Criador e seus anjos e santos e almas bem-aventuradas.  Voz-doçura, voz-ternura de mãe dos filhos seus, de catequizadora dos outros filhos dos outros, portanto, também de Deus.
Era um corpo esguio, incansável – mães não cansam!- a caminhar apressado em busca do bonde lotado, a trabalhar inabalávelmente por dez ou doze horas, voltar à noite no mesmo bonde aglomerado e depois caminhar, caminhar, caminhar até alcançar a maçaneta da porta de casa. Era um corpo incansável que, ainda à noite, curvava-se sobre a máquina de costura doméstica para melhorar a renda que sustentaria os filhos, até que chegasse a madrugada, para levantar-se ainda na mesma madrugada e voltar a procurar o mesmo bonde do dia anterior e de todos os dias posteriores até que a saúde lhe permitisse.
Era uma memória privilegiada. Sabia de cor os salmos, livros, capítulos e versículos; estrofes e versos dos mais comoventes hinos de glórias, aleluias e louvores.
Era uma alma grata, piedosa, amorosa e santa. Sempre em comunhão com o Criador, seu guia e mestre e Luz.
(Era um tempo que se perdeu no fio da vida.)
Era uma vida íntegra que  deixava lindos exemplos no curso do tempo.
Hoje, olho para os mesmos olhos e os vejo opacos sem poderem mais distinguir figuras, letras, fisionomias, nem mesmo as imagens das divindades que tanto venerou de joelhos e mãos postas. Quero de volta a luz, sinto saudade dos brilhos, mas esses olhos há muito tempo não os apresenta mais. A dureza da vida passada os faz sombrios a cada dia mais.
Quero apertar as mãos enérgicas, firmes, porém não as sinto mais: são mãos de uma fragilidade incompatível com aquelas que além de orar com vigor, embalaram-me e aos meus irmãos e netos ao som de cantigas de ninar e, depois, nos guiaram nos primeiros e em todos os passos da vida. Quero toma-las firmemente entre as minhas, entretanto bate-me o receio de maltrata-las que, já de tão fracas, nem mais a tigelinha de sopa conseguem segurar.
Ouço às vezes o ruído irregular da respiração débil e percebo que o coração inabalável e corajoso vai perdendo ritmo, desejando repousar.
Coração cansado não empurra o ar. A voz não sai. Tento decifrar mas há vezes em que no lugar da voz acontecem apenas sopros levemente sonorizados, sem articulação. Não consigo... E penso: Onde a voz brilhante de mulher corajosa, dos cânticos de louvor? Onde? Por quê?
O Corpo esguio e incansável uma cadeira o sustenta. De rodas.
Não há mais bonde à sua espera, não há mais jornadas de dez, doze horas, não há mais costuras na madrugada. Não há mais passos apressados para não perder a missa, para ir à feira, passar nossas roupas, preparar o alimento, arrumar a casa, cuidar do cachorro, do quintal... Há sim uma cadeira de rodas que não obedece aos seus desejos de ir e vir, mas tão-somente os de quem a leva e traz.
A memória enfraquecida e confusa confunde ou apaga nomes, rostos, datas, orações.
Observando minha mãe nesse estado ingrato, lembro-me duns versos de Castro Alves:

Deus! Ó Deus! Onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes?

Observando-a nesse estado ingrato chego a imaginar que mães são deuses aqui na Terra e, para lá do infinito, nada mais há além de utopias.

                                                                        **********
                                 P.S. (2016, 18 de junho, ela voou para as alturas) 

sábado, 15 de março de 2014

EQV - Experiência de Quase Vida


Se existe destino no sentido da fatalidade que a expressão carrega em si, eu diria que a vida de Sandra e a minha foram entrelaçadas por obra de um desígnio, não com o significado que a etimologia lhe confere, mas como  imposição de uma vontade superior e metafísica.
                                                          * * *
Naquele tempo havia um córrego que descia irrequieto de algum ponto da Serra da Mantiqueira, cantante, borbulhante sobre as pedras expostas de seu leito raso. Serpenteava como um menino alegre a correr incansável fazendo milhares de rodeios por entre o arrozal e a vegetação natural que se estendia na parte baixa das terras de propriedade da família de Sandra. Depois, em algum ponto incerto do Rio Paraíba, talvez lá pelos arredores de Lorena ou de Cachoeira, seria engolido impiedosamente deixando de ser um córrego para sempre. Mesmo o rio, bem mais adiante, tragado pelo oceano jamais voltaria a ser rio. Águas passadas não voltam nunca mais ao mesmo lugar. Todas as águas existentes são e serão sempre outras; nunca as mesmas.

Na parte alta da propriedade cresciam árvores ornamentais e frutíferas, principalmente caquizeiros; erguiam-se ali, três elegantes casas grandes e, mais acima, outras três menores, todas bem cuidadas, com vista para o arrozal e a serra; entre as três primeiras, um imenso terreiro ornamentado por jardins multicoloridos onde gansos, marrecos e vários cães vira-latas poeirentos corriam em festa; no espaçoso derredor duas éguas negras nos encantavam com seus galopes como se exibissem a elegância e o brilho de suas pelagens. Sandra as amava. Chamava-as de irmãs, e de "meus filhotes" os cães e aves. 
Esse terreiro fora preparado para a celebração da vida e das alegrias. Nele aconteciam as grandes festas, almoços ao ar livre e reuniões da família; reuniam-se ainda os amigos do partido político em seus momentos de articulações. Também os discretos confrades da maçonaria vez ou outra usufruíam do magnífico espaço.
Havíamos comemorado alguma coisa - lembro-me de um ligeiro festejo -, contudo, a noite avançara muito. Deixamos de tocar violão. Os pais e irmãs de Sandra se recolheram para o repouso. Ela e eu permanecemos deitados numa rede, envolvidos por um lençol impregnado de leve perfume, admirando a linda e gigantesca lua azul a derramar luz sobre os misteriosos despenhadeiros da serra ao fundo.
Trabalháramos juntos na mesma empresa multinacional havia pouco tempo, e lá nascera nossa amizade. Sandra, entretanto, sempre frágil, tivera sua doença agravada e afastou-se em definitivo do trabalho. Nossos encontros, então, passaram a acontecer  em sua casa na cidade ou na fazendinha ao pé da Mantiqueira, apenas nos finais de semana.
Naquela noite de lua azul, quando ficamos sós, Sandra abraçou-me fortemente, olhando a paisagem por cima de meu ombro. Após um suspiro profundo, murmurou com voz melancólica:  “não acredito que esse remédio novo sobre o qual o doutor Artur tem falado ao meu pai possa representar a cura para o meu caso... já apareceram tantos tratamentos milagrosos e todos deram em nada”
O doutor Artur era um médico jovem, pouco mais velho que nós que nos aproximando dos trinta anos. Se Sandra não estivesse doente, ele seria um forte interessado em arrebatá-la de mim. Considerando que talvez ela não fosse muito longe, tudo o que se lia nos olhos dele era o desejo de impressionar com seu jeito de bom moço e, quem sabe, tirar o máximo proveito de sua paciente. Proveito no pior sentido que a expressão possa sugerir, já que as vantagens financeiras eram acumuladas pelo médico oficial do tratamento, o doutor Evilásio. Um homem sabe muito bem ler as intenções de outro.  Essas são duas das razões pelas quais passei a não gostar de médicos. Outras, agora, não vêm ao caso.
A nova droga que entusiasmava o jovem médico não havia ainda no Brasil a não ser por contrabando, nem se sabia se chegaria aqui oficialmente e com que nome. No exterior  chamava-se Interferon.  Não imaginávamos que, em menos de seis meses, a televisão e a imprensa fariam uma grande publicidade do novo remédio então milagroso, e que hoje é utilizado normalmente em terapias para doenças como a dela. 
Artur tentava convencer o pai de Sandra a deixa-la ir com ele para a Suíça; lá o medicamento estava sendo liberado, e lá ele pretendia fazer uma especialização..

Olhando por cima de meu ombro ela continuou:  Seria muito bom se fôssemos como a Bela e a Linda, ou os cães, que não conhecem a morte. Os animais não temem a aproximação do fim porque o desconhecem”.
Silenciei-me. Tudo o que eu pudesse dizer já havia dito antes.
Sandra prosseguiu: “... também é diferente ter consciência de que se é finito, e que o momento extremo já está nos tomando pela mão. Eu o pressinto a cada ação, sei como será... Sei a que equipamentos estarei ligada, que tubos me manterão em funcionamento  até não poderem mais..."
Apertamo-nos.
Impotente, incapaz, sugeri:  “ quem sabe se o tratamento na Suíça poderá lhe devolver a saúde definitivamente? Você tem muita energia, muita vida...”
"Viver é ser riacho" disse-me ela  tão tristemente que me soou poético, embora eu não tivesse compreendido de imediato. Percebendo que não fora clara, completou: "lá no fim do curso deve haver um pequeno delta onde o riacho se tornará adolescente, ou haverá um desnível por onde deslizará ou se precipitará feito uma pequena cachoeira que lhe mostrará a liberdade. Entretanto, delta ou cachoeira será o fim... Por ser riacho ele corre indiferente; simplesmente desliza sem precisar saber o que haverá adiante, apenas flui. E vida deveria ser somente fluir... Vida não é lutar como eu tenho feito, estou cansada, quase desistindo do percurso..."
Calamo-nos. A lua azul iluminava seu rosto pálido. Com a brisa forte as folhagens das árvores sussurravam sobre nós. Um galo cantou ao longe. Sandra retomou:
Você já ouviu falar das pessoas que entram no túnel da morte e por algum motivo voltam a viver trazendo lembranças do que aconteceu nessa passagemSão as chamadas experiências de quase morte. Todos os que a enfrentaram relatam que há luzes no fim do túnel, algo incrível que os atrai, mas acabam voltando, geralmente contra a vontade, pois dizem que a visão é arrebatadora. Comigo acontece o contrário. Não há sequer entrada para um túnel que eu possa percorrer até ver a luz, existe uma imensa muralha que me avisa que ali é meu limite, dali não passarei. Teoricamente somos iguais, eu e você, pois também respiro, me alimento, durmo, sinto frio e calor, amo, tenho meus compromissos... Mas a isso tudo não posso chamar de vida. Eu diria que é uma expeeriência de quase vida. Não, não sou como você e os demais, eu quase vivo... Vida é ser riacho, cão, égua, árvore, ave...

Adormecemos juntos na rede. Sua respiração aquecia meu rosto.

No meio da madrugada percebi que ela estava ficando muito fria, sem que a temperatura ambiente justificasse. Falei com ela, que mal conseguiu me responder.
Por conhecê-la bem notei a gravidade da situação. Saltei da rede e corri para o interior da casa grande acordando a todos.
Seu pai colocou-a no carro e fomos rapidamente ao hospital, toda a família. Sandra necessitava de uma nova transfusão, procedimento que vinha tornando-se rotina em sua vida - uma rotina que encurtava mais os espaços entre uma sessão e outra.
O pai dela, como eu disse, também exercia a medicina, porém médicos não fabricam sangue. Para manter um banco de sangue exclusivo e clandestino dentro de um hospital ele desembolsava fortunas, além do que gastava com todo o tratamento. Mais tarde percebi que a “reserva particular” não passava de um negócio ilícito. Contudo, quando um ente amado está passando por uma experiência de quase vida, o que é lícito? O que é ético? Diante de um estado de quase vida caem máscaras, vaidades, moral; perde-se a força, despreza-se o poder e as leis.

Ao sair da transfusão e de um curto período de internação na UTI, Sandra não voltou para casa. Assim como o córrego, estava prestes a entrar no delta ou no desnível.
Apresentava um corpo de postiça altivez. A pele rosada dissimulava a doença a quem não a conhecesse. 

Passando pela alfândega do aeroporto, em companhia do doutor Artur, acenou-me. Beijou as pontas dos dedos e com um sopro vigoroso fez o beijo voar até mim.
Eu soube depois que seu pai vendeu mais da metade da fazenda e foi clinicar em outra cidade. O doutor Artur especializou-se em sei lá o quê.

Não faz muito tempo, tive de retornar às proximidades do cenário dessa história. A curiosidade fez com que me desviasse do caminho e me dirigisse à fazenda. O lugar está irreconhecível. Há um novo bairro surgindo, muitas casas já construídas e habitadas. 
O córrego não passa mais ali; pode ter sido desviado, canalizado ou simplesmente secou.
Não correm mais gansos, marrecos nem cães vira-latas poeirentos. Não estão mais lá as éguas Bela e Linda. As casas antigas também desapareceram.  Então a voz de Sandra ecoou em meu cérebro:  "Vida é ser riacho, cão, égua, árvore, ave... Não, não sou como você e os demais...
Olhei em redor e acreditei - ainda acredito - que minha existência também não passa de uma experiência de quase vida. às vezes me sinto como ela: caminhando sem túnel de quase morte, diante de uma imensa muralha.


Gilberto Leite

gilbertoleite.sp@gmail.com

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

DEUS DE UM MENINO CURIOSO



Penso que nasci errado por um lapso divino. Uma dose excessiva de dureza talvez tenha sido semeada no meu coração, ou alguns grãos de senso crítico, derramados em demasia em minha consciência.
Desde muito pequeno 一 bem pequeno 一, eu já era do tipo que para acreditar em algo tinham de me provar ou usar argumentos que me convencessem sem a menor possibilidade de restarem dúvidas (provar e convencer são coisas diferentes).
Talvez uma herança geneticamente longínqua de um tal Tomé, ou São Tomé. Quem sabe? Embora eu não traga nada de santo nem de apóstolo em mim.  
Acredito que Tomé tenha sido cuidadosamente sábio. Se alguém ressurge transfigurado, transformado, mostrando uma aparência nova e diz: “eu sou aquele ”, nada mais coerente do que pedir:  “(por estar com aparência diferente) prove-me que você é aquele”.
Mas volto a falar de mim: ainda muito cedo, tinha certa dificuldade em me relacionar com a fé. Era difícil ter fé no invisível, no intocável. Assim, minha crença em Deus era precária, embora eu confiasse nele. Crença e confiança também são coisas diferentes.
Quando minha mãe me falava a respeito de Deus, eu indagava:
一 Você já viu Deus?  
Ela me respondia: 
一  Não.
Então eu lançava outra pergunta:
一 O padre ou os pastores crentes já viram Deus? 
Ela me respondia: 
一 Não.
Certo dia, como coroinha da paróquia que frequentávamos, perguntei ao vigário:
一 O papa vê Deus?” 
Respondeu-me: 
一 Ver não, porém recebe suas inspirações”  

"Bem, se ninguém, nem o papa vê, quem me assegura que ele existe?", questionava-me. Mas não perdia a confiança.
Tinha até uma certa intimidade com Ele, porque criança não precisa crer para confiar. Se eu dissesse que hoje, adulto, confio em algo ou alguém cuja existência não me convence, arriscaria a certeza na minha inteligência. Porém, criança, eu podia. O mundo mental infantil é diferente. Criança pode muitas coisas que adultos não podem.
Confiando, minhas rezas eram honestas, meus pedidos eram justos dentro dos critérios de justiça estabelecidos pela religião. Nunca 一eu quase sou capaz de jurar一, jamais em uma prece fiz algum pedido importante que fosse todo para mim (exceto uns dois ou três, para não pensarem que estou exagerando, uns dois ou três de pequenina importância, como esse que aconteceu lá pelos meus nove anos: “Deus, se não for pedir muito, faça com que algum colega meu que tenha trazido um lanche bem gostoso para a hora do recreio perca a fome por completo e me pergunte se eu quero comer no lugar dele; desculpe o meu pedido mas a fome hoje está brava!). Pedidos grandes eram sempre para os outros.
Eu rezava muito, pedia muito, reconheço, mas prometia que em troca, caso fosse atendido, eu faria isso e mais aquilo ou deixaria de fazer aquilo outro. Assim era o meu relacionamento com Deus. 
É possível que houvesse algum quê de esperteza da  minha parte, pois eu já tinha conhecimento da fala de Jesus que dizia que, se um pequenino pedisse, seria atendido; assim eu usava da minha condição de pequenino. Por outro lado, que culpa eu tinha se quem  ensinou isso foi o filho dele, quer dizer, d’Ele?
A grande verdade é a seguinte: eu pedi, pedi, pedi, pedi, e nada...
Uma vez, na confissão eu disse isso ao padre: 
一  A gente pede e Deus não atende!
O padre argumentou: 
一 Talvez você esteja querendo muito mais do que mereça, talvez esteja indo pouco ao encontro a d'Ele... Talvez você peça por pessoas que não mereçam receber o que você pede...”
Tal resposta me fez refletir por muito tempo sobre o que determina o que cada um de nós merece. O que é merecer muito, pouco, mais ou menos... Por que eu tinha de ir ao encontro de Deus? Devia ser o contrário: se, conforme me ensinaram, ele me criou, me amava e me desejava recolher de volta ao reino dos céus, ele é que devia vir ao meu encontro. E podia ter vindo de um jeito muito simples, colocando no meu coração uma sementinha de fé.
Quanto ao fato de o padre questionar se os outros mereciam ou não o que eu  pedia, aquilo me bateu no coração como ofensa. As pessoas por quem eu implorava (e não eram bens ou luxos; eram alegrias, paz, bem-estar, saúde), eu as amava; e quem eu amava merecia sim! além do, que – eu li na Bíblia e ouvi nos sermões –, eram todos criaturas à semelhança de Deus que muito as queria (também)!
Ainda criança, achei muito complicado pensar nessas coisas. Complicado e perigoso, pois eu tinha um medo enorme de pecar. Aí, deixei de pensar.
Resolvi que um dia, pelo meu próprio esforço, sem reza nem nada, iria conseguir tudo aquilo que vivia desejando para mim e para os outros.

O problema é que eu precisava que as coisas acontecessem naquele tempo, não depois! E elas não aconteceram.

Gilberto Leite