terça-feira, 9 de maio de 2017

O Maior Amor do Mundo



Houve um tempo em que era possível ainda ver, da frente da casa onde eu morava, o céu e o horizonte, e no fim da extensa rua, por entre gigantescas touceiras de bambus, as réstias do sol quando descia nos finais dos dias de primavera e de verão.
Por essa rua passava todas as tardes, na direção das derradeiras réstias, uma linda moça de cabelos cor de ferrugem, pele clara e sardenta, com seu uniforme escolar, voltando das aulas para sua casa que ficava, decerto, além ao bambuzal. Eu a ia observando desaparecer na distância da rua esburacada, no prenúncio de escuridão que rapidamente se transformava em véu a esconder a casa em que entraria ou que atalho tomaria lá adiante, onde nem ela nem a rua podiam mais ser distinguidas. De tanto a observar em seus passos lentos, olhar perdido como se nada olhasse, passando como se não passasse, acho que me apaixonei. Talvez a tenha amado por causa da cor dos cabelos, das manchinhas em sua pele, da leveza no andar, mas, também, por me trazer crepúsculos e levar mistérios que se ocultavam com o chegar da noite. 

Naqueles tempos meus sonos tornaram-se mais difíceis: pensava muito na menina de cabelos cor de ferrugem, queria tê-la para mim, então meus suspiros me apertavam o peito e meus olhos abertos quase não me deixavam mais dormir de tanta insônia e palpitações. 

Certa vez senti um pouco de coragem e perguntei seu nome. Disse-me que se chamava Ziza. Pedi para acompanha-la, respondeu-me que não deveria. 
Outra vez perguntei onde morava, indicou-me que além do bambuzal. Pedi para acompanhá-la, disse-me que talvez num outro dia. 
Numa terceira vez ofereci-lhe um ramo de gerânios que ela aceitou com um sorriso lindo, dizendo que eu lhe parecia bom. Pedi para acompanha-la, disse-me não ter certeza se convinha. 

O tempo foi passando, meu pouco de coragem me impedindo de insistir em acompanha-la e, quem sabe, no caminho, dizer que a amava. A timidez me deixava indeciso entre desistir ou agir. Desistir ou agir. Desistir... 

Houve um crepúsculo em que ela não passou. Esperei por muito tempo até piscarem as primeiras estrelas. Aguardei no dia seguinte e nos outros, mas compreendi que, com a chegada das férias escolares ela não caminharia pela rua esburacada e poeirenta, por quase dois meses. 

A vida dá muitas voltas e, em cada volta, imprevistos geralmente nos surpreendem. Num desses imprevistos, minha família e eu tivemos de deixar nossa casa, ir para o interior onde permaneceríamos por algum tempo, não muito. Era uma época em que longas viagens ainda se faziam de trem. 
Embarcamos em um vagão de segunda classe. O trem partiu à noite. Vi, pelo vidro embaçado da janela, todas as luzes passarem. No princípio eram um turbilhão, uma nebulosa que logo escasseou. Uma a uma as luzes me iam dando adeus. Lembro-me da última que nos esperou no topo de um poste, bem longe; fomos nos aproximando, chegando, até que ela passou a viajar para trás e desapareceu escondida pelo corpo do trem, na curva. 

Durante toda a viagem e todo o tempo em que permanecemos no interior, muito mais do que o planejado, a lembrança e a saudade de Ziza me acompanharam e cresceram em mim transformando-se no maior amor  da minha vida ainda tão jovem. Eu devia ter sido mais corajoso – pensava - e dito que a desejava, antes de nos separarmos; devia ter anotado seu endereço. Devia, mas agora havia só lembranças e saudade.
Como nada é definitivo, um dia voltamos. Não para a mesma casa mas para o mesmo bairro, e a primeira coisa que fiz foi sair à procura de Ziza. Vários meses haviam passado e o sofrimento me dera coragem. Na pequena vila para além dos bambus, muita gente conhecia a moça dos cabelos de ferrugem. Era a única com aquele tom. Fui informado de que ela e a família haviam se mudado para muito longe. Uma senhora moradora da casa vizinha da em que Ziza viveu explicou-me, com certo cuidado, que ela havia engravidado - "Um escândalo", acrescentou com olhos arregalados. Por consequência, a família envergonhada "desapareceu no mundo". Foi o que me disse.  
Naquele tempo as coisas eram assim.  Fosse hoje talvez os acontecimentos tivessem desenrolar diferente.
Nunca soube para onde ela foi.  Sei, hoje, que de vez em quando o maior amor do mundo ainda aperta meu coração.

Gilberto Leite
gilbertoleite.sp@gmail.com

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Prece para meu cão




Entre a velha e desativada estação de trem e o bairro da Independência, havia uns cinco quilômetros de estrada, dos quais pelo menos quatro eram  em terra batida.

Eu morava em um bairro novo perto da estação abandonada e me habituei a percorrer a pé a estrada para a Independência várias vezes por semana. Ida e volta.

Piolho, meu cão, era companheiro inseparável naquelas andanças. Seus pelos negros sempre voltavam encardidos, avermelhados de poeira, exigindo sempre uma boa escovada e banhos regulares de mangueira e xampu, quando voltavam a reluzir.

Havia uma pedra no caminho.

No caminho havia uma pedra.

Nela eu me sentava, tirava a garrafinha d’água do bolso para servir carinhosamente meu amigo, que bebia na minha mão em concha. Dava-lhe também uns biscoitos que sempre levava para tornar nossos passeios mais agradáveis.

Depois do descanso e da ligeira refeição, Piolho saía em disparada à frente. Fazia meia-volta perto do pontilhão sobre a linha do trem que ia para  muito além de Taubaté e, em seguida, voltava ao meu encontro. Repetia a brincadeira algumas vezes até se cansar e me esperar sentado antes da linha férrea. Por algum motivo ele sabia que não devia ultrapassá-la sozinho. Era instintivo. Sempre me esperou para atravessarmos juntos. Nunca o ensinei. Acho que cães também têm seu inconsciente coletivo.

Visitávamos meus sobrinhos, brincávamos com eles e voltávamos serenos como as tardes que caíam sobre nós.

No caminho havia uma pedra.

Novamente sentávamos para a água e biscoitos.

Depois do descanso e da refeição, Piolho corria à frente, agora na direção da pista asfaltada, mas não a atravessava. O inconsciente coletivo lhe dizia que era perigoso. Fazia meia-volta e vinha ao meu encontro. Várias vezes, até cansar.

Quando começamos a sair juntos ele era ainda novo e pequeno, muito pequeno - por isso ganhara esse nome. Nas primeiras vezes levei-o preso a uma coleira longa, com medo de que pudesse se embrenhar pelos caminhos que nasciam da estrada, ligando a lugares que eu então desconhecia, e neles se perder.

Com o tempo, percebi que a coleira tornara-se desnecessária; abandonei-a. Ele ficou feliz com isso, ganhou mais liberdade, descobriu que podia distanciar-se e voltar sem sair do meu campo de visão.

A pedra no caminho foi uma escolha dele: Certa vez, tendo me deixado para trás, sentou-se ao pé dela para me esperar. Na volta, repetiu o mesmo ato. Nos dias seguintes também. Foi assim que ela se transformou em nosso ponto obrigatório de parada.

Ele nunca soube, não entenderia; ninguém soube, jamais disse que a denominei “Pedra do Piolho”. Até hoje o registro existe apenas em minha memória.

Foram muitas, muitas caminhadas.

Houve um dia em que meu amigo não quis me acompanhar. Recusou meu convite, não se interessou mesmo vendo-me encher o bolso de biscoitos.

Refleti e me lembrei de que, em dias anteriores, ele havia parado muitas vezes no caminho e, também, ultimamente, não dava mais aquelas corridas esticadas até o pontilhão ou à beira da via asfaltada. Andava cansado. 

Fiz um carinho em sua cabeça e parti sozinho. Senti muito sua falta no percurso. O sentimento era o de estar mutilado; faltava uma parte em mim.

Piolho não andou mais comigo pela estrada para a Independência. Havia envelhecido sem que eu percebesse, não aguentava mais a distância.

Passei a ir de carro para poder não me separar do amigo. Ele viajava sentado no banco traseiro olhando a paisagem que tão bem conhecia, mas sem qualquer expressão de alegria. Talvez seus prazeres estivessem se degenerando como ocorre com alguns humanos à beira da senilidade.

Entendi que não queria mais sair de casa. Fosse humano, dir-se-ia que era depressão e o trataríamos com fluoxetina.

Ficava a maior parte do tempo deitado pelos cantos.

Adoeceu (doença de velhice, disse-me a veterinária).

Um dia - coincidentemente sete de setembro -  ele conquistou sua independência: Estava deitado em meu colo quando o coração parou. Seu último suspiro ficou para sempre em meu antebraço esquerdo. O do coração.

Seu corpo, para a eternidade, sepultado ao lado da “Pedra do Piolho”.

Nunca mais passei pela estrada; preferia dar a volta pelo centro da cidade.

Às vezes, quando rezo, procuro conversar com ele. Acho que me escuta. Espíritos de cães são mais puros que espíritos de gente, creio. Não conhecem maldade. Penso, ainda, que a missão deles é a de alegrar nossos caminhos aqui na Terra.

Por isso rezo por meu Piolho e todos os outros que já passaram por aqui.


Gilberto Leite
gilbertoleite.sp@gmail.com

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Uma velha história de amor


Pessoas e histórias se perpetuam nas memórias de outras pessoas, em documentos ou ficam registradas enquanto houver quem relembre, ouça ou leia sobre elas 一independentemente do tempo que houver passado.  
A história que narro a seguir não possuía nenhum registro escrito; permanecia solitariamente guardada em minha lembrança; como não acho justo deixá-la morrer comigo, , exponho-a tal como ouvia há muitos anos.
Existe no interior do Estado de São Paulo uma localidade muito pequena denominada Guarapiranga. É um distrito do também pequeno e aprazível  município de Ribeirão Bonito. Minha história de vida, de certa forma começa ali. Atualmente Guarapiranga não chega a contar dois mil habitantes; possui algumas ruas bem arrumadas, uma praça ampla, igreja, escola, cemitério, banco, correio, conjunto esportivo, mas já foi muito menor. Há muitos anos não passava de um povoado com algumas famílias de proprietários e trabalhadores rurais vivendo em torno de um armazém e pharmácia, cercados por terras de cultivo de café, culturas secundárias, e gado. Naquele tempo, soube eu, a área "urbana" consistia de apenas de duas ruas. Ou melhor: eram duas fileiras de casas razoavelmente distantes umas das outras

  Foi em Guarapiranga que viveram o velho Bento e dona Rosa, meus bisavós maternos, além de minha avó, tios-avós e alguns parentes distantes que não cheguei a conhecer. Creio que hoje já não haja mais descendentes diretos daqueles meus velhos familiares por lá. Sei de muitos fatos do lugar porque minha avó gostava de nos reunir, meus irmãos e eu, para rememorar seus tempos de infância, contando-nos histórias por ela ouvidas ou vividas. Sua voz entonada e dramática desenhava em nossas mentes ora causos  intrigantes atribuídos ao imaginário, ora outros absolutamente reais, tão verdadeiros “como este sol que está alumiando”, dizia-nos .
De todas as histórias ouvidas sobre a vida em Guarapiranga, uma das que mais emocionou foi a da Rainha.
Contava a avó, com lágrimas nos olhos, que, por algum motivo que desconhecia 一 pois ainda era bem menina quando ocorreu 一, uma enorme dificuldade financeira abateu-se sobre a família. Por consequência,uma clara inquietação estampou-se nas fisionomias de seus pais, onde se liam indissimuláveis preocupações. Talvez seus irmãos mais velhos compreendessem os motivos, pois também andavam mudados. Ela não, via apenas que a vida e as relações em casa não eram mais como antes. As abundâncias cederam lugar a racionamentos; as habituais conversas e cantorias ao pé de todas as noites mudaram para sussurros cautelosos. Nos olhos de seu pai e de sua mãe caíra um cismar misterioso a avisar a então menina que, simplesmente, as coisas não estavam nada bem.

Numa daquelas tardes, o velho Bento saiu mal-humorado, talvez para Ribeirão Bonito ou Boa Esperança do Sul, retornando com o pôr do sol, cansado e com gotas de suor brotando dos poros da testa. Voltou sem palavras. Não quis jantar, não proseou, não tocou viola, não dormiu. Durante a madrugada todos ouviram seus suspiros e gemidos abafados no travesseiro, porque todos haviam perdido o sono também. Quem conseguiria adormecer com ele naquela aflição? A bisavó cochichava solitária a reza do terço 一 um mal sinal. Terço se rezava às seis da tarde; fora de hora, ainda mais de madrugada, só podia ser por algo muito grave.

  Amanheceu e da cozinha logo exalou o aroma de café. Em seguida, à mesa, com a família reunida, o velho, em vez de recitar a oração da manhã como agradecimento pela noite passada, pelo alimento, e mais um dia a viver; em vez disso coçou o rosto, baixou o olhar e pigarreou para anunciar: 
    - Não fiquem zangados com o pai, pois eu tive de fazer algo muito doloroso...  A vossa         mãe já ficou sabendo. Hoje virá aqui um homem buscar a Rainha... tive de vender ela, que era a única coisa de valor que nos restava. Com o dinheirinho que entrar a gente começa a acertar a vida. Perdoem o pai..."

 一Rainha - dizia contundente minha avó一 não era uma coisa. Nem tampouco um exemplar. Não era uma cabeça de gado, um animal qualquer. Era como que parte da família. Não vivia no curral mas à beira da porta da cozinha, às vezes metia a cabeça para dentro da janela como criança curiosa. Ela era quem dava o leite de todas as manhãs para a família e a quem mais se chegasse para um café com broa de fubá e queijo, vindo também dela. Parecia saber tanto disso que seu leite era o que de melhor havia por todas as redondezas. Não recebera esse nome de Rainha por acaso, era mais que “de estimação”, mais que uma princesa.
Rainha só faltava falar  一 explicava. 一  E, do jeito dela, conversava com as pessoas como se fosse gente, entendia as palavras e nós entendíamos seus mugidos. Comia nas nossas mãos, era nossa melhor amiga, uma amiga e tanto! A gente sabia quando ela mugia de alegria, de saudade ou quando queria pedir alguma coisa

Teve de ser vendida.

 一Vendida como se vende uma saca de feijão! Negociada, assim, como um par de botinas, um chapéu! Como pôde o pai chegar ao ponto de mandar embora em troca de dinheiro um ser que respirava, que tinha sentimento e coração?

Lá pelo meio da tarde apareceu na propriedade um sujeito com ar de jagunço. Conversou rapidamente com o velho Bento, passou-lhe um pacotinho de dinheiro recebendo em troca uma corda com a qual envolveu o pescoço da Rainha após examina-la por alto. Despediu-se e foi saindo montado num cavalo elegante, segurando a cordinha amarrada na vaquinha.
Para a família, que observava de perto do paiol a partida da amiga mais que de estimação, parecia tratar-se de um funeral.
一 Mais triste do que enterro de gente humana” – explicava a vó quando nos falava.

Permaneceram todos imóveis, lado a lado: pai, mãe e sete irmãos ombro a ombro assistindo a a partida de Rainha que ia cabisbaixa e triste como gente, sentindo no peito a dor mais cruel da traição; Meu bisavô, estendendo os braços como se fosse possível  envolver a mulher e sete filhos lamentava:  
一 Igual a ela, nunca mais! Deus que me perdoe, tenha piedade de mim!

O jagunço tinha dificuldade em avançar porque Rainha dificultava a marcha. Caminhava resistindo aos trancos dados na corda, empacava, arrancando gritos do estúpido:
一 Vamos, bicho do diabo! Anda, peste!

 一Que dor ouvir Rainha ser chamada de bicho do diabo, de peste...
 No momento de o comprador e a vaquinha ultrapassarem a porteira, instintivamente todos os irmãos passaram a gritar em conjunto “Adeus, Rainha... Adeus...” (não costumavam dizer tchau, era adeus mesmo). A mãe de minha avó aderiu, porém, em vez de adeus dizia “Vai com Deus, Rainha... vai com Deus, menina... menina querida...

Já transposta a porteira, mas ouvindo as vozes tão conhecidas, Rainha, sem compreender que devia seguir em frente a fim de consolidar negócios de homens, empacou definitivamente. Virou-se para trás soltando um mugido tão suplicante que “perfurou o coração como se fosse uma punhalada."
一 foi uma dor tão forte que ainda hoje continua atravessando meu peito...
.".............................................................................. 
A mãe da avó chorou: “Ah, meu Deus, que pecado, que dor!”
As crianças choraram: “Volta, Rainha, volta...”
Um de meus tios-avôs perguntou: “Vão matar ela, pai?”
O velho, meu bisavô, tomado por impulso descomunal saiu numa corrida desconjuntada dificultada pelas botinas, atravessou o terreno até alcançar o jagunço que teimava em puxar com violência a Rainha, aos gritos de “bicho do diabo!”.
一 Calma lá! Pare aí, sô! Me dê cá essa corda e pegue seu dinheiro de volta! A vaca não vai mais, a venda está desfeita!
一Como não vai? 一 retrucou o comprador irritado 一 Desistir de negócio ajustado é desonra! Homem de barba na cara não volta atrás depois da palavra dada”
一 Pois vá você e a tal de honra pro meio dos infernos! Me dê cá a corda que a nossa vaca fica!
一 E se eu não entregar ela?
一 Pois experimente!

Houve discussão acalorada com trocas de insultos e até ameaças de morte. Mas a vaquinha ficou. Afinal, ali era o seu lugar.
Rainha viveu muitos anos entre aqueles meus antepassados.
Ela e minha avó se perpetuam em mim.
A primeira porque me foi contada em forma de historia-poesia. A segunda porque foi uma mulher-poesia que me contou histórias por muitos anos.
Hoje, em Guarapiranga, Ribeirão Bonito, ninguém conhece essa passagem.
Talvez somente meus irmãos e eu ainda saibamos. 
Fazia uns sessenta anos desse ocorrido quando a vó nos contava. E agora retransmito exatamente como a houvia há mais de cinquenta................

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Minha Mãe




Eram uns olhos grandes, brilhantes, sempre a falar de perdão, fraternidade e bem. Não se cansavam de olhar para os céus onde conseguiam desvendar arcanjos e querubins a zelar por todos nós.

Eram mãos macias e carinhosas sempre a cuidar das costuras, das linhas, da casa, dos filhos, e nos intervalos, justapostas, punham-se em profunda devoção a falar com os olhos do Olhar Maior. Eram mãos muito firmes nessas horas de sintonizar com o Pai que, atento, certamente haveria de cuidar dos apelos que nasciam do coração.
Era um coração firme, valente, corajoso e bom, a amar e aceitar todos os desígnios que vinham da morada além das nuvens e das constelações. Coração que jamais se abateu nas mais dolorosas tragédias, nas lutas e perdas, nos desenganos e perdas, nos medos e perdas, nas ingratidões e perdas, na solidão... Um coração que batia com a força da fé e da certeza. A mesma força dos brilhos dos olhos, da energia das mãos.
Era uma voz que entoava as mais lindas melodias quando nos falava, ensinava, prevenia, acautelava... Voz que não havia igual na harmonia das notas de louvores endereçadas ao Criador e seus anjos e santos e almas bem-aventuradas.  Voz-doçura, voz-ternura de mãe dos filhos seus, de catequizadora dos outros filhos dos outros, portanto, também de Deus.
Era um corpo esguio, incansável – mães não cansam!- a caminhar apressado em busca do bonde lotado, a trabalhar inabalávelmente por dez ou doze horas, voltar à noite no mesmo bonde aglomerado e depois caminhar, caminhar, caminhar até alcançar a maçaneta da porta de casa. Era um corpo incansável que, ainda à noite, curvava-se sobre a máquina de costura doméstica para melhorar a renda que sustentaria os filhos, até que chegasse a madrugada, para levantar-se ainda na mesma madrugada e voltar a procurar o mesmo bonde do dia anterior e de todos os dias posteriores até que a saúde lhe permitisse.
Era uma memória privilegiada. Sabia de cor os salmos, livros, capítulos e versículos; estrofes e versos dos mais comoventes hinos de glórias, aleluias e louvores.
Era uma alma grata, piedosa, amorosa e santa. Sempre em comunhão com o Criador, seu guia e mestre e Luz.
(Era um tempo que se perdeu no fio da vida.)
Era uma vida íntegra que  deixava lindos exemplos no curso do tempo.
Hoje, olho para os mesmos olhos e os vejo opacos sem poderem mais distinguir figuras, letras, fisionomias, nem mesmo as imagens das divindades que tanto venerou de joelhos e mãos postas. Quero de volta a luz, sinto saudade dos brilhos, mas esses olhos há muito tempo não os apresenta mais. A dureza da vida passada os faz sombrios a cada dia mais.
Quero apertar as mãos enérgicas, firmes, porém não as sinto mais: são mãos de uma fragilidade incompatível com aquelas que além de orar com vigor, embalaram-me e aos meus irmãos e netos ao som de cantigas de ninar e, depois, nos guiaram nos primeiros e em todos os passos da vida. Quero toma-las firmemente entre as minhas, entretanto bate-me o receio de maltrata-las que, já de tão fracas, nem mais a tigelinha de sopa conseguem segurar.
Ouço às vezes o ruído irregular da respiração débil e percebo que o coração inabalável e corajoso vai perdendo ritmo, desejando repousar.
Coração cansado não empurra o ar. A voz não sai. Tento decifrar mas há vezes em que no lugar da voz acontecem apenas sopros levemente sonorizados, sem articulação. Não consigo... E penso: Onde a voz brilhante de mulher corajosa, dos cânticos de louvor? Onde? Por quê?
O Corpo esguio e incansável uma cadeira o sustenta. De rodas.
Não há mais bonde à sua espera, não há mais jornadas de dez, doze horas, não há mais costuras na madrugada. Não há mais passos apressados para não perder a missa, para ir à feira, passar nossas roupas, preparar o alimento, arrumar a casa, cuidar do cachorro, do quintal... Há sim uma cadeira de rodas que não obedece aos seus desejos de ir e vir, mas tão-somente os de quem a leva e traz.
A memória enfraquecida e confusa confunde ou apaga nomes, rostos, datas, orações.
Observando minha mãe nesse estado ingrato, lembro-me duns versos de Castro Alves:

Deus! Ó Deus! Onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes?

Observando-a nesse estado ingrato chego a imaginar que mães são deuses aqui na Terra e, para lá do infinito, nada mais há além de utopias.

                                                                        **********
                                 P.S. (2016, 18 de junho, ela voou para as alturas) 

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Joana, a puta bem-aventurada


 Joana se deitara com todo tipo de homem, tantos que nem era possível contar.
Um dia, de tanto ouvir a consciência 一dos outros一 resolveu aceitar o convite para a conversão do espírito.
No templo, um representante de Deus pediu-lhe uma certa porcentagem de seus ganhos em troca da salvação.  Salvação da alma. Temendo manchar o divino cofre com dinheiro de bordel, Joana  confessou ao puro homem de onde vinha seu sustento e como era sua vida.
Em resposta ouviu que "Deus não escolhe cédulas, moedas, cartões de débito ou crédito; não pergunta a origem nem o labor exercido para obtê-los, todas as doações são bem-vindas desde que dadas com fé, e o que importa é o amor com que se oferta".

Encheu-se Joana de alívio e paz; sentiu uma espécie de permissão divina para seus deslizes veniais: "Se meu dinheiro é bom para Deus e os meios pelos quais me vem não são condenáveis, segundo o santo homem, meu ofício não haverá de ser passível de punição". 
Saiu feliz, sentindo-se amplamente abençoada, que seu dinheiro não era sujo para Deus. Foi-se sentindo-se aceita, pois concluíra que, no Juízo, o Pai não a julgará pelas obras do corpo, mas avaliará sua alma. Assim entendendo, resolveu não se preocupar com a redenção no interior da igreja mas em obras, esqueceu a conversão,  prosseguiu na profissão.

Joana havia sido menina muito pobre, desamparada.  Num gesto de verdadeira caridade e amor, há muito, desde que pôde, mantinha paralelamente ao seu trabalho de "vida fácil" um pequeno compromisso de assistência a crianças e mulheres da rua , viadutos, vielas e abandono.
Foi por isso que ela e eu nos conhecemos.
Um dia ela me falou de sua vida, e assim eu soube o que agora conto aqui.

Estávamos em tempo de Natal.  Meu grupo e eu caminhávamos pela noite perigosa, em apoio aos desvalidos, oferecendo-lhes um pouco de alimento fresco.  Levávamos também alguns brinquedos para as crianças desamparadas.
Nessa mesma rua escura, pelo lado oposto, vinham três mulheres destemidas enfrentando igualmente a escuridão e seus perigos. Três mulheres benditas e venturosas, que distribuíam doces, bolos e refrigerantes aos mesmos necessitados.
Rimos muito quando nossos grupos se encontraram sob um viaduto da Rua Santo Antonio, na Bela Vista.  Uma delas disse ser aquela coincidência uma obra de Deus:
 一Vocês dão o salgado e nós a sobremesa... Vocês, brinquedos; nós, refrigerantes... Não é coincidência, é providência.  Divina Providência."
Foi Joana quem falou. Aquela Joana que se deitava com tantos homens que nem se podia imaginar.   Tornamo-nos amigos.

Joana ganhava bem,  dinheiro suficiente e boa sobra todo mês. Puderam, então, ela e duas amigas de profissão juntar-se para levar consolação aos miseráveis. Não em forma de orações, pois as igrejas já estavam repletas de rezadores.
Ela e as duas amigas de profissão alugaram um casarão nos confins do arrabalde.  E passaram a acolher mães e crianças desvalidas. Somente elas, as três mundanas de vida fácil.
一Nunca nos visitou um religioso, uma religiosa; jamais uma assistente social. Nem o Governo, nem político.  Nem os Direitos Humanos passaram lá.一 disseram-nos.

 Mantiveram o abrigo até quando lhes foi possível.  A vizinhança se opôs.
 A casa cheia de mulheres e moleques de rua importunou a puritana vizinhança. Imaculada vizinhança que, com ajuda de autoridades púbicas, os expulsou de lá.
No dia de irem embora 一elas, as mães e as crianças一 não havia um religioso, uma religiosa; não esteve uma assistente social. Nem o Governo, nem político.  Nem os Direitos Humanos passaram lá. 
Joana e as duas amigas de profissão seguem a vida de bordel. Entretanto, duas vezes por semana, religiosamente, vão às ruas à noite visitar seus desabrigados, desvalidos, desgraçados. Sem patrocínio de ninguém. Usam apenas as sobras do dinheiro que ganham por abrir as pernas a tantos homens que nem é possível contar.

Joana já passou dos quarenta anos há um bom tempo, mas se mantém tão em forma que ainda permanece no ofício.  Seu filho mais velho em breve irá se formar em Tecnologia da Informação. A filha do meio pretende trabalhar na área de  Gestão de Recursos Humanos. A menor quer ser enfermeira 一 e será, afirma convicta.
Não sei se os filhos têm conhecimento das atividades dela. Sabendo ou não, devem sentir orgulho da mãe Joana, sem trocadilho.
Não faz diferença ser filho de santa ou filho de puta como Joana. 
Beatitude é bênção que Deus derrama sobre quem tem bom coração. Joana e suas duas amigas estão, em vida, beatificadas pelos desvelos aos pobres desvalidos, e santificadas pelo mesmo Deus que criou mulheres puras e putas.
Bem-aventuradas sejam todas as mulheres boas de espírito.
Amadas sejam, façam o que fizerem. Hoje e sempre por todos os séculos dos séculos.




Gilberto Leite

gilbertoleite.sp@gmail.com

sábado, 15 de março de 2014

EQV - Experiência de Quase Vida


Se existe destino no sentido da fatalidade que a expressão carrega em si, eu diria que a vida de Sandra e a minha foram entrelaçadas por obra de um desígnio, não com o significado que a etimologia lhe confere, mas como  imposição de uma vontade superior e metafísica.
                                                          * * *
Naquele tempo havia um córrego que descia irrequieto de algum ponto da Serra da Mantiqueira, cantante, borbulhante sobre as pedras expostas de seu leito raso. Serpenteava como um menino alegre a correr incansável fazendo milhares de rodeios por entre o arrozal e a vegetação natural que se estendia na parte baixa das terras de propriedade da família de Sandra. Depois, em algum ponto incerto do Rio Paraíba, talvez lá pelos arredores de Lorena ou de Cachoeira, seria engolido impiedosamente deixando de ser um córrego para sempre. Mesmo o rio, bem mais adiante, tragado pelo oceano jamais voltaria a ser rio. Águas passadas não voltam nunca mais ao mesmo lugar. Todas as águas existentes são e serão sempre outras; nunca as mesmas.

Na parte alta da propriedade cresciam árvores ornamentais e frutíferas, principalmente caquizeiros; erguiam-se ali, três elegantes casas grandes e, mais acima, outras três menores, todas bem cuidadas, com vista para o arrozal e a serra; entre as três primeiras, um imenso terreiro ornamentado por jardins multicoloridos onde gansos, marrecos e vários cães vira-latas poeirentos corriam em festa; no espaçoso derredor duas éguas negras nos encantavam com seus galopes como se exibissem a elegância e o brilho de suas pelagens. Sandra as amava. Chamava-as de irmãs, e de "meus filhotes" os cães e aves. 
Esse terreiro fora preparado para a celebração da vida e das alegrias. Nele aconteciam as grandes festas, almoços ao ar livre e reuniões da família; reuniam-se ainda os amigos do partido político em seus momentos de articulações. Também os discretos confrades da maçonaria vez ou outra usufruíam do magnífico espaço.
Havíamos comemorado alguma coisa - lembro-me de um ligeiro festejo -, contudo, a noite avançara muito. Deixamos de tocar violão. Os pais e irmãs de Sandra se recolheram para o repouso. Ela e eu permanecemos deitados numa rede, envolvidos por um lençol impregnado de leve perfume, admirando a linda e gigantesca lua azul a derramar luz sobre os misteriosos despenhadeiros da serra ao fundo.
Trabalháramos juntos na mesma empresa multinacional havia pouco tempo, e lá nascera nossa amizade. Sandra, entretanto, sempre frágil, tivera sua doença agravada e afastou-se em definitivo do trabalho. Nossos encontros, então, passaram a acontecer  em sua casa na cidade ou na fazendinha ao pé da Mantiqueira, apenas nos finais de semana.
Naquela noite de lua azul, quando ficamos sós, Sandra abraçou-me fortemente, olhando a paisagem por cima de meu ombro. Após um suspiro profundo, murmurou com voz melancólica:  “não acredito que esse remédio novo sobre o qual o doutor Artur tem falado ao meu pai possa representar a cura para o meu caso... já apareceram tantos tratamentos milagrosos e todos deram em nada”
O doutor Artur era um médico jovem, pouco mais velho que nós que nos aproximando dos trinta anos. Se Sandra não estivesse doente, ele seria um forte interessado em arrebatá-la de mim. Considerando que talvez ela não fosse muito longe, tudo o que se lia nos olhos dele era o desejo de impressionar com seu jeito de bom moço e, quem sabe, tirar o máximo proveito de sua paciente. Proveito no pior sentido que a expressão possa sugerir, já que as vantagens financeiras eram acumuladas pelo médico oficial do tratamento, o doutor Evilásio. Um homem sabe muito bem ler as intenções de outro.  Essas são duas das razões pelas quais passei a não gostar de médicos. Outras, agora, não vêm ao caso.
A nova droga que entusiasmava o jovem médico não havia ainda no Brasil a não ser por contrabando, nem se sabia se chegaria aqui oficialmente e com que nome. No exterior  chamava-se Interferon.  Não imaginávamos que, em menos de seis meses, a televisão e a imprensa fariam uma grande publicidade do novo remédio então milagroso, e que hoje é utilizado normalmente em terapias para doenças como a dela. 
Artur tentava convencer o pai de Sandra a deixa-la ir com ele para a Suíça; lá o medicamento estava sendo liberado, e lá ele pretendia fazer uma especialização..

Olhando por cima de meu ombro ela continuou:  Seria muito bom se fôssemos como a Bela e a Linda, ou os cães, que não conhecem a morte. Os animais não temem a aproximação do fim porque o desconhecem”.
Silenciei-me. Tudo o que eu pudesse dizer já havia dito antes.
Sandra prosseguiu: “... também é diferente ter consciência de que se é finito, e que o momento extremo já está nos tomando pela mão. Eu o pressinto a cada ação, sei como será... Sei a que equipamentos estarei ligada, que tubos me manterão em funcionamento  até não poderem mais..."
Apertamo-nos.
Impotente, incapaz, sugeri:  “ quem sabe se o tratamento na Suíça poderá lhe devolver a saúde definitivamente? Você tem muita energia, muita vida...”
"Viver é ser riacho" disse-me ela  tão tristemente que me soou poético, embora eu não tivesse compreendido de imediato. Percebendo que não fora clara, completou: "lá no fim do curso deve haver um pequeno delta onde o riacho se tornará adolescente, ou haverá um desnível por onde deslizará ou se precipitará feito uma pequena cachoeira que lhe mostrará a liberdade. Entretanto, delta ou cachoeira será o fim... Por ser riacho ele corre indiferente; simplesmente desliza sem precisar saber o que haverá adiante, apenas flui. E vida deveria ser somente fluir... Vida não é lutar como eu tenho feito, estou cansada, quase desistindo do percurso..."
Calamo-nos. A lua azul iluminava seu rosto pálido. Com a brisa forte as folhagens das árvores sussurravam sobre nós. Um galo cantou ao longe. Sandra retomou:
Você já ouviu falar das pessoas que entram no túnel da morte e por algum motivo voltam a viver trazendo lembranças do que aconteceu nessa passagemSão as chamadas experiências de quase morte. Todos os que a enfrentaram relatam que há luzes no fim do túnel, algo incrível que os atrai, mas acabam voltando, geralmente contra a vontade, pois dizem que a visão é arrebatadora. Comigo acontece o contrário. Não há sequer entrada para um túnel que eu possa percorrer até ver a luz, existe uma imensa muralha que me avisa que ali é meu limite, dali não passarei. Teoricamente somos iguais, eu e você, pois também respiro, me alimento, durmo, sinto frio e calor, amo, tenho meus compromissos... Mas a isso tudo não posso chamar de vida. Eu diria que é uma expeeriência de quase vida. Não, não sou como você e os demais, eu quase vivo... Vida é ser riacho, cão, égua, árvore, ave...

Adormecemos juntos na rede. Sua respiração aquecia meu rosto.

No meio da madrugada percebi que ela estava ficando muito fria, sem que a temperatura ambiente justificasse. Falei com ela, que mal conseguiu me responder.
Por conhecê-la bem notei a gravidade da situação. Saltei da rede e corri para o interior da casa grande acordando a todos.
Seu pai colocou-a no carro e fomos rapidamente ao hospital, toda a família. Sandra necessitava de uma nova transfusão, procedimento que vinha tornando-se rotina em sua vida - uma rotina que encurtava mais os espaços entre uma sessão e outra.
O pai dela, como eu disse, também exercia a medicina, porém médicos não fabricam sangue. Para manter um banco de sangue exclusivo e clandestino dentro de um hospital ele desembolsava fortunas, além do que gastava com todo o tratamento. Mais tarde percebi que a “reserva particular” não passava de um negócio ilícito. Contudo, quando um ente amado está passando por uma experiência de quase vida, o que é lícito? O que é ético? Diante de um estado de quase vida caem máscaras, vaidades, moral; perde-se a força, despreza-se o poder e as leis.

Ao sair da transfusão e de um curto período de internação na UTI, Sandra não voltou para casa. Assim como o córrego, estava prestes a entrar no delta ou no desnível.
Apresentava um corpo de postiça altivez. A pele rosada dissimulava a doença a quem não a conhecesse. 

Passando pela alfândega do aeroporto, em companhia do doutor Artur, acenou-me. Beijou as pontas dos dedos e com um sopro vigoroso fez o beijo voar até mim.
Eu soube depois que seu pai vendeu mais da metade da fazenda e foi clinicar em outra cidade. O doutor Artur especializou-se em sei lá o quê.

Não faz muito tempo, tive de retornar às proximidades do cenário dessa história. A curiosidade fez com que me desviasse do caminho e me dirigisse à fazenda. O lugar está irreconhecível. Há um novo bairro surgindo, muitas casas já construídas e habitadas. 
O córrego não passa mais ali; pode ter sido desviado, canalizado ou simplesmente secou.
Não correm mais gansos, marrecos nem cães vira-latas poeirentos. Não estão mais lá as éguas Bela e Linda. As casas antigas também desapareceram.  Então a voz de Sandra ecoou em meu cérebro:  "Vida é ser riacho, cão, égua, árvore, ave... Não, não sou como você e os demais...
Olhei em redor e acreditei - ainda acredito - que minha existência também não passa de uma experiência de quase vida. às vezes me sinto como ela: caminhando sem túnel de quase morte, diante de uma imensa muralha.


Gilberto Leite

gilbertoleite.sp@gmail.com

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

DEUS DE UM MENINO CURIOSO



Penso que nasci errado por um lapso divino. Uma dose excessiva de dureza talvez tenha sido semeada no meu coração, ou alguns grãos de senso crítico, derramados em demasia em minha consciência.
Desde muito pequeno 一 bem pequeno 一, eu já era do tipo que para acreditar em algo tinham de me provar ou usar argumentos que me convencessem sem a menor possibilidade de restarem dúvidas (provar e convencer são coisas diferentes).
Talvez uma herança geneticamente longínqua de um tal Tomé, ou São Tomé. Quem sabe? Embora eu não traga nada de santo nem de apóstolo em mim.  
Acredito que Tomé tenha sido cuidadosamente sábio. Se alguém ressurge transfigurado, transformado, mostrando uma aparência nova e diz: “eu sou aquele ”, nada mais coerente do que pedir:  “(por estar com aparência diferente) prove-me que você é aquele”.
Mas volto a falar de mim: ainda muito cedo, tinha certa dificuldade em me relacionar com a fé. Era difícil ter fé no invisível, no intocável. Assim, minha crença em Deus era precária, embora eu confiasse nele. Crença e confiança também são coisas diferentes.
Quando minha mãe me falava a respeito de Deus, eu indagava:
一 Você já viu Deus?  
Ela me respondia: 
一  Não.
Então eu lançava outra pergunta:
一 O padre ou os pastores crentes já viram Deus? 
Ela me respondia: 
一 Não.
Certo dia, como coroinha da paróquia que frequentávamos, perguntei ao vigário:
一 O papa vê Deus?” 
Respondeu-me: 
一 Ver não, porém recebe suas inspirações”  

"Bem, se ninguém, nem o papa vê, quem me assegura que ele existe?", questionava-me. Mas não perdia a confiança.
Tinha até uma certa intimidade com Ele, porque criança não precisa crer para confiar. Se eu dissesse que hoje, adulto, confio em algo ou alguém cuja existência não me convence, arriscaria a certeza na minha inteligência. Porém, criança, eu podia. O mundo mental infantil é diferente. Criança pode muitas coisas que adultos não podem.
Confiando, minhas rezas eram honestas, meus pedidos eram justos dentro dos critérios de justiça estabelecidos pela religião. Nunca 一eu quase sou capaz de jurar一, jamais em uma prece fiz algum pedido importante que fosse todo para mim (exceto uns dois ou três, para não pensarem que estou exagerando, uns dois ou três de pequenina importância, como esse que aconteceu lá pelos meus nove anos: “Deus, se não for pedir muito, faça com que algum colega meu que tenha trazido um lanche bem gostoso para a hora do recreio perca a fome por completo e me pergunte se eu quero comer no lugar dele; desculpe o meu pedido mas a fome hoje está brava!). Pedidos grandes eram sempre para os outros.
Eu rezava muito, pedia muito, reconheço, mas prometia que em troca, caso fosse atendido, eu faria isso e mais aquilo ou deixaria de fazer aquilo outro. Assim era o meu relacionamento com Deus. 
É possível que houvesse algum quê de esperteza da  minha parte, pois eu já tinha conhecimento da fala de Jesus que dizia que, se um pequenino pedisse, seria atendido; assim eu usava da minha condição de pequenino. Por outro lado, que culpa eu tinha se quem  ensinou isso foi o filho dele, quer dizer, d’Ele?
A grande verdade é a seguinte: eu pedi, pedi, pedi, pedi, e nada...
Uma vez, na confissão eu disse isso ao padre: 
一  A gente pede e Deus não atende!
O padre argumentou: 
一 Talvez você esteja querendo muito mais do que mereça, talvez esteja indo pouco ao encontro a d'Ele... Talvez você peça por pessoas que não mereçam receber o que você pede...”
Tal resposta me fez refletir por muito tempo sobre o que determina o que cada um de nós merece. O que é merecer muito, pouco, mais ou menos... Por que eu tinha de ir ao encontro de Deus? Devia ser o contrário: se, conforme me ensinaram, ele me criou, me amava e me desejava recolher de volta ao reino dos céus, ele é que devia vir ao meu encontro. E podia ter vindo de um jeito muito simples, colocando no meu coração uma sementinha de fé.
Quanto ao fato de o padre questionar se os outros mereciam ou não o que eu  pedia, aquilo me bateu no coração como ofensa. As pessoas por quem eu implorava (e não eram bens ou luxos; eram alegrias, paz, bem-estar, saúde), eu as amava; e quem eu amava merecia sim! além do, que – eu li na Bíblia e ouvi nos sermões –, eram todos criaturas à semelhança de Deus que muito as queria (também)!
Ainda criança, achei muito complicado pensar nessas coisas. Complicado e perigoso, pois eu tinha um medo enorme de pecar. Aí, deixei de pensar.
Resolvi que um dia, pelo meu próprio esforço, sem reza nem nada, iria conseguir tudo aquilo que vivia desejando para mim e para os outros.

O problema é que eu precisava que as coisas acontecessem naquele tempo, não depois! E elas não aconteceram.

Gilberto Leite