sábado, 15 de março de 2014

EQV - Experiência de Quase Vida


Se existe destino no sentido da fatalidade que a expressão carrega em si, eu diria que a vida de Sandra e a minha foram entrelaçadas por obra de um desígnio, não com o significado de destino que a etimologia lhe confere, mas como  imposição de uma vontade superior e metafísica.
                                                          * * *
Naquele tempo havia um córrego que descia de algum ponto da Serra da Mantiqueira irrequieto, cantante, borbulhante sobre as pedras expostas de seu leito raso. Serpenteava como um menino alegre a correr incansável fazendo milhares de rodeios por entre o arrozal e a vegetação natural que se estendia na parte baixa das terras de propriedade da família de Sandra. Depois, em algum ponto incerto do Rio Paraíba, talvez lá pelos arredores de Lorena ou de Cachoeira, seria engolido impiedosamente deixando de ser um córrego para sempre. Mesmo o rio, bem mais adiante, tragado pelo oceano jamais voltaria a ser rio. Águas passadas não voltam nunca mais ao mesmo lugar. Toda a água existente são e serão sempre outras águas, nunca as mesmas.

Na parte alta da propriedade cresciam árvores ornamentais e frutíferas, principalmente caquis; erguiam-se três elegantes casas grandes e mais acima outras três menores, todas bem cuidadas, com vista para o arrozal e a serra; entre as três primeiras casas, um imenso terreiro ornamentado por jardins multicoloridos; gansos, marrecos e vários cães vira latas poeirentos corriam em festa o tempo todo; no espaçoso derredor duas éguas negras nos encantavam com seus trotes e galopes como que exibindo suas elegâncias e o brilho das pelagens. Sanda as amava. Chamava-as de irmãs e de meus filhotes chamava aos cães e aves. 
Esse terreiro fora preparado para a celebração da vida e das alegrias. Nele aconteciam as grandes festas, almoços ao ar livre e reuniões da família; encontravam-se ainda os amigos do partido político em seus momentos de articulações. Também os discretos confrades da maçonaria vez ou outra usufruíam do magnífico espaço.
Havíamos comemorado alguma coisa, contudo, a noite avançara muito. Deixamos de tocar violão. Pais e irmãs humanas de Sandra se recolheram para o repouso. Ela e eu permanecemos deitados numa rede envolvidos por um cobertor impregnado de leve perfume, admirando a linda e gigantesca lua azul a derramar luz sobre os misteriosos despenhadeiros da serra ao fundo.
Trabalháramos juntos na mesma empresa multinacional fazia pouco tempo e lá nascera nossa amizade. Sandra, entretanto, sempre frágil, tivera sua doença agravada e afastou-se em definitivo do trabalho. Nossos encontros, então, passaram a acontecer  em sua casa na cidade ou na fazendinha em finais de semana.
Naquela noite de lua azul, quando ficamos sós, Sandra abraçou-me fortemente olhando a paisagem por cima de meu ombro; após um suspiro profundo  murmurou com voz melancólica:  não acredito que esse remédio novo de que o doutor Artur tem falado ao meu pai possa representar a cura para o meu caso... já apareceram tantos tratamentos milagrosos e todos deram em nada...”
Doutor Artur era um médico jovem, de pouco mais idade que nós que estávamos nos aproximando dos trinta anos. Se Sandra não tivesse leucemia ele seria um interessado em arrebata-la de mim. Considerando que talvez ela não fosse muito longe, tudo o que se lia nos olhos dele era o desejo de impressionar com seu jeito de bom moço e, quem sabe, tirar proveito de sua paciente. Proveito sexual sim, já que as vantagens financeiras eram acumuladas pelo médico oficial da doença de Sandra, doutor Evilásio. Um homem sabe muito bem ler as intenções de outro.  Essas são duas razões pelas quais não gosto de médicos. Há mais razões que agora não veem ao caso.
A nova droga que entusiasmava doutor Artur não havia ainda no Brasil a não ser por contrabando, não se sabia se chegaria aqui oficialmente e com que nome. No exterior  tinha o nome Interferon.  Não imaginávamos que em menos de seis meses a televisão e a imprensa escrita fariam uma grande publicidade sobre o novo remédio "milagroso" que hoje é utilizado em vários tratamentos,  tendo sido, inclusive, usado como principal terapia para doenças como a de Sandra. 
Doutor Artur tentava convencer o pai de Sandra a deixa-la ir com ele para a Suíça, lá o remédio estava sendo liberado (e lá ele pretendia fazer uma especialização).
Olhando por cima de meu ombro ela continuou:  Seria muito bom se fôssemos como a Bela e a Linda – eram os nomes das éguas – ou dos cães que não conhecem a morte. Animais não temem a aproximação do fim porque o desconhecem...”
Silenciei-me. Tudo o que eu pudesse dizer já havia dito antes.
Sandra prosseguiu: “... também é diferente ter consciência de que se é finito e ter consciência de que o momento extremo já está nos tomando pela mão... eu o pressinto a cada ação, sei como será... sei a que equipamentos estarei ligada, que tubos me estarão mantendo em funcionamento  até não poderem mais..."
Apertamo-nos.
Impotente, incapaz, sugeri:  “ quem sabe se o tratamento na Suíça poderá lhe devolver a saúde definitivamente? Você tem muita energia, muita vida...”
"- Viver é ser riacho" disse-me tão tristemente que me soou poético, porém, de forma que não entendi. Percebendo que não fora clara, completou: "lá no fim do curso deve haver um pequeno delta onde o riacho se tornará adolescente, ou haverá um desnível por onde deslizará ou se precipitará feito uma pequena cachoeira que lhe mostrará a liberdade, entretanto, delta ou cachoeira será o fim... por ser riacho ele corre indiferente, simplesmente desliza sem precisar saber o que haverá adiante, apenas flui e vida é fluir... vida não é lutar como eu tenho feito..."
Silenciamo-nos. A lua iluminava também seu rosto branco. Com a brisa forte as folhagens das árvores chiavam sobre nós. Um galo cantou ao longe. Sandra retomou:
Você já ouviu falar das pessoas que entram no “túnel da morte” e por algum motivo voltam a viver trazendo lembranças do que aconteceu nessa passagemSão as chamadas experiências de quase morte. Todos os que a enfrentaram relatam que há luzes no fim do túnel, existe algo incrível que os atrai para lá, mas acabam voltando, geralmente contra a vontade, pois, alegam, a visão é arrebatadora. Comigo acontece o contrário, não há sequer entrada para um túnel que eu possa percorrer até ver a luz, existe uma imensa muralha que me avisa que ali é meu limite, dali não passarei. Teoricamente somos iguais, eu, você e todas as pessoas pois também respiro, me alimento, durmo, sinto frio e calor, amo, tenho meus compromissos e isso tudo não posso chamar de vida... Eu diria que é uma quase vida. Não, não sou como você e os demais... Vida é ser riacho, cão, égua, árvore, ave...
(Os tratamentos de hoje, do momento em que escrevo, são tão eficazes! Novas substâncias, evoluções terapêuticas, transplantes, tudo o que a ciência nos oferece permite não nos amedrontarmos mais com doenças que já foram consideradas trágicas, inclusive a que Sandra teve. Sinto-me triste por todos os que adoeceram como ela naqueles anos.)
Adormecemos juntinhos na rede. Sua respiração aquecia meu rosto.
No meio da madrugada percebi que ela estava ficando fria, gelada sem que a temperatura ambiente justificasse. Falei com ela, mal conseguiu me responder.
Por conhecê-la bem percebi a severidade da situação. Tomei-a no colo e corri para o interior da casa grande.
Seu pai, também médico, colocou-a no carro e fomos rapidamente ao hospital, toda a família. Sandra necessitava de uma nova transfusão.
Transfusões vinham se tornando rotina em sua vida. Uma rotina que cada vez ia tornando mais curtos os espaços entre uma sessão e outra.
Seu pai também era médico, porém, médicos não fabricam sangue. Para manter um banco de sangue exclusivo e clandestino dentro de um hospital ele desembolsava muito dinheiro além do que gastava com todo o tratamento. Hoje eu percebo que a “reserva particular” não passava de um negócio ilícito. Contudo, quando um ente amado está passando por uma experiência de quase vida, o que é lícito? O que é ético? Diante de um estado de quase vida caem máscaras, vaidades, perde-se a força, despreza-se o poder, leis...

Ao sair da transfusão e de um razoável período de recuperação na UTI Sandra não voltou para casa. Assim como o córrego, estava prestes a entrar no delta ou no desnível.
Magérrima, apresentava um corpo de postiça altivez. Pele rosada dissimulava qualquer doença a quem não a conhecesse. Passando pela alfândega do aeroporto em companhia do doutor Hugo, acenou-me, beijou as pontas dos dedos e com um sopro vigoroso fez o beijo voar até mim.
Seu pai, que também era médico, eu soube, vendeu mais da metade da fazenda. Doutor Hugo especializou-se em sei lá o quê.

Não há muito tempo tive de retornar às proximidades do cenário dessa história. A curiosidade fez com que me desviasse do caminho e me dirigisse à fazenda. O lugar está irreconhecível, há um novo bairro surgindo, muitas novas casas já construídas e habitadas. Um grandioso trabalho de aterro e terraplenagem avançou por onde havia o arrozal sufocando-o com um arruamento de vias largas, a maioria já asfaltada e com luminárias instaladas.
O córrego não existe mais.
Talvez tenha sido desviado ou canalizado.
Não correm mais gansos, marrecos nem cães poeirentos vira latas.
Não estão mais as éguas Bela e Linda.
Das casas antigas, somente uma das grandes ainda permanece agora transformada em escritório de vendas da empresa incorporadora.
A voz de Sandra ecoou em meu cérebro:  "Vida é ser riacho, cão, égua, árvore, ave... Não, não sou como você e os demais...
Olhei em redor e acreditei - acredito - que minha existência também não passa de uma experiência de quase vida. às vezes me sinto sem túnel de quase morte.