domingo, 10 de novembro de 2013

A dor do remorso

Quando Ziza não pôde mais ser minha namorada meu coração se dilacerou. Nada havia que preenchesse o vazio e a dor.
Desejando fugir do sofrimento tive de arranjar outra namorada, às pressas. Seria horrível ficar só. Qualquer que fosse, eu necessitava de uma.
Não foi difícil encontrar, namoradas há em muitos lugares.
Essa, a substituta, foi, como se diz, “um achado”, embora diferente de Ziza em tudo.
Sua beleza diferente, sua graça, seus modos, tudo me agradava.
Mesmo não sendo o amor que era Ziza eu a tive como uma joia, dessas que dão orgulho em ostentar.
Era muito bom estarmos juntos e, hoje, suponho, ela se apaixonou por mim.
Durante toda a estação de noites frias sempre carregadas de neblina, namoramos, convivemos, passeamos a pé pelo parque gelado; era romântico andarmos de rostos bem colados para, aspirando, trocarmos a fumaça que saída de nossas bocas. Achava-a sensual quando o frio fazia seus lábios roxeados e o rosto roseado.
Caminhávamos lentamente, todas as noites,  pelo jardim iluminado por luz artificial que só se fazia bem forte perto de cada luminária, pois, longe, a cerração, como cortina, formava halos débeis e indefinidos.
Dentro de cada halo meu coração silenciosamente procurava por Ziza.
Penso que a namorada substituta, sem saber que era, chegou a suspeitar às vezes de meu pensamento longe, das evidências de meu olhar fugaz, do não falar, mas usando de sua percepção feminina me retribuía carinhos, doçuras, enchendo-me de extensos e inesquecíveis intervalos de paz.
Para o resto da vida não pude mais desvincular de qualquer inverno, cerração ou frio a sensação de romance. Foi ela quem me ensinou.
Nunca mais perdi a sensualidade do vento, a paixão da garoa, nem a suspeita de poder a qualquer momento deparar-me com uma surpresa doce dentro de halos que se formam nas noites embaçadas de cerração.
Mas a vida segue e nos conduz e passa.
A exemplo da vida, todas as coisas também caminham para um fim.
Ainda não pressentíamos nada disso, então, eu e a namorada, enganando-nos talvez, seguíamos como se nosso idílio fosse eterno. Juntos, de mãos dadas, caminhávamos querendo acreditar que cada passo fosse o princípio.
Entre nós, mãos quentes e apertadas, nossos braços balançavam marcando o avançar do tempo. Que estaria consumado ainda antes da última gota do inverno.
Meu olhar perdido, meu não falar foram afrouxando nossos braços. O pêndulo tornou-se lento até parar. E somente quando não balançava mais entre nossos corpos veio a mais dolorosa descoberta: o remorso, coisa que dói na alma, faz chorar, querer consertar, voltar, pedir perdão; mas, é irremediável, não se apaga mais.
O pêndulo parou por culpa da saudade de Ziza.
A namorada do parque derramou um choro sentido. Quando abria os lábios para balbuciar palavras de desolação uns grossos fios de saliva se formavam entre eles e rompiam-se como sua felicidade, enganada que fora por meu desejo de usa-la para amenizar a falta do amor que não pude ter.
Eu, condoído e remoído pelo remorso observava-a transfigurada e traída. Quis consolar, explicar, justificar, mas não havia o que dizer.
Olhando seu rosto sofrido, olhos vermelhos, nariz escorrendo, jurei do fundo da minha alma nunca mais fazer mulher chorar. Principalmente por amor. 


Gilberto Leite