quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Viver morrendo





Hoje recebi uma mensagem da grande amiga Célia Maria, que mora na cidade de Taubaté. Ela me diz: “tenho olhado mais a Serra da Mantiqueira e observado mais os pássaros nos finais de tarde conforme você me sugeriu (...) realmente, essa atitude de simplesmente olhar para o que é belo e simples nos desestressa (...) pena que estamos nos aproximando do final do ano e a cada final de ano essa sensação horrível de que o tempo está passando tão rapidamente me entristece muito"
Na mesma hora digitei a resposta:
“(...) penso  que não é a rapidez ou o escoar do tempo que nos entristece. O que me causa grande amargor é saber que o tempo que nos resta – independentemente de ser ou não final de ano – vai ficando mais curto, não sabemos quanto, para realizarmos tudo o que ainda pretendemos. E há uma relação que por falta de uma palavra mais adequada eu chamo de injusta, embora não seja uma expressão justa. Relação, na minha idade, extremamente desproporcional entre o tempo vivido e o tempo a viver no que diz respeito ao realizado e a realizar. À medida que o tempo se escoa, que nós passamos, vamos descobrindo que há muito mais coisas por fazer. Sinto que se eu tivesse uma semana de vida e conseguisse listar tudo o que eu deveria ainda realizar antes de partir, essa relação seria bem maior do que  se enumerasse uma a uma todas as coisas que já fiz durante a vida. E não foi pouco!
Penso que pessoas inconformadas como eu jamais se dão por realizadas, sempre terão mais a acrescentar às suas obras tanto quanto mais se aproximem da consumação.
A minha tristeza maior ocorrerá no dia-de-não-poder-fazer-mais-nada, ainda que a vida flua por mais alguns instantes. Não vejo na vida qualquer grande significado se não houver realização nem capacidade de criar ou produzir.
Eu disse que há uma relação injusta, não encontrei ainda a melhor expressão mas dá para explicar matematicamente o meu sentimento: cada dia vivido deve ser eliminado do saldo de nossa existência. Cada hora a mais significa uma a menos. 
Quando vivemos, morremos.”

Nunca enviei a resposta. Preferi encaminhar votos de feliz Natal. Célia Maria não gosta de morrer enquanto vive. É uma mulher nascida para viver.


Gilberto Leite