quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Ouvindo vazios


Gosto muito de ouvir pessoas de amplo conhecimento do vernáculo, que sabem aplicá-lo bem nos diálogos. Já os que apreciam exibir erudição, esses não me agradam. Acho-os chatos, se possível fujo. Fico encantado com aquelas pessoas de pouco domínio da Língua e no entanto, à sua maneira, no seu jeito simples, tímido umas vezes, noutras acidentado, conseguem passar mensagens tão bonitas quanto ricas. Admiro as que falam baixo, mansamente, melodiosamente. Ouço-as como se me cantassem uma melodia sacra ou a Ópera de Nabuco, de Verdi.
No entanto, o que eu gosto mesmo é do significado do silêncio nas falas: Há pessoas que não dizem tudo com palavras; suas mensagens estão mais no olhar, nos sorrisos e no bailar das mãos... Há pessoas que nos dizem determinadas coisas com a voz, querendo explicitar outras mais profundas que somente se externam com o coração. 
Agrada-me muito aquele tipo de diálogo ou monólogo em que alguém fala mas vai deixando vazios, buracos imensos entre cada frase dita; abismos entre um período e outro, eternidades nas pequenas pausas para encadear os próximos raciocínios. E é aí, nesses buracos abissais de eternidades que se escondem todas as maravilhas do que não foi sonoramente dito. Não é importante que haja lógica, mensagens de abismos não obedecem a regras nem leis. 
Poetas sabem disso, talvez eles possam explicar com clareza o que estou tentando dizer com dificuldade. Poetas... já que os mencionei... eu sei de cor mas sempre volto a ler um poema muito bonito de Junqueira Freire, que foi um poeta mediano – segundo a crítica  -  na sua obra geral. E foi fantástico nesse poema que sempre torno a ler (para mim, se um homem fez uma poesia linda, não importa que as outras tenham saído razoáveis. Um lírio amarelo aberto em um jardim seco torna belo o jardim).
Junqueira Freire tinha problemas familiares. Para ver-se livre deles ingressou num convento beneditino apesar de nenhuma vocação para o sacerdócio. Gostava da liberdade, amava mulheres, por isto a clausura provocou-lhe muitas dores que foram transformadas em poesias, todas fortes e algumas contundentes. Mas, essa que eu releio sempre é de uma doçura tão sublime além de um dos mais ricos exemplos do que eu disse antes sobre falar deixando algo que somente os corações sabem completar ou expressar-se usando abismos que não carregam a obrigatoriedade da explicação retórica uma vez que abismos, por si, fazem-se compreender: Vou reproduzir aqui três das onze estrofes que compõem “A Órfã na Costura”, poema escrito por Junqueira Freire à sua mãe:
Minha mãe era bonita, 
Era toda a minha dita, 
Era todo o meu amor 
Seu cabelo era tão louro 
Que nem uma fita de ouro  
Tinha tamanho esplendor. 
(...)
Minha mãe era mui bela,  
— Eu me lembro tanto dela,  
De tudo quanto era seu!  
Tenho em meu peito guardadas  
Suas palavras sagradas  
Com os risos que ela me deu.
(...)
Minha mãe! — diz-me esta vida,  
Diz-me também esta lida,  
Este retrós, esta lã:  
Minha mãe! — diz-me este canto,  
Minha mãe! — diz-me este pranto,
— Tudo me diz: — Minha mãe! —
(...)
Há um vazio neste poema. Imenso vazio! Junqueira Freire nunca o conclui, sempre o deixa reticente e me provoca cada vez que leio. Minha dúvida torna-se cada vez maior (Já sei a resposta, mas gosto de retornar à dúvida, quem sabe ela mude a resposta que eu penso saber?): “Minha mãe era bonita...” Por que era? Teria morrido? Teria envelhecido e se tornado feia? Teria partido sem destino pelo mundo? Ou a clausura é que matava o poeta tornando, por extensão, morta também a mãe? 
E no final: "Minha mãe! – diz-me este pranto, – Tudo me diz. – Minha mãe!" – Ele não explica, não conclui e eu quero saber onde, a que lugar foi sua mãe! Ou onde ela não está! Mas tudo o que Junqueira deixa é o imenso vazio formado por outros vazios menores um após o outro... Então, de repente eu redescubro  (é bom redescobrir a mesma coisa pois indica que o poeta não nos enganou): Sua mãe está menos nas palavras bonitas que ele escreveu a respeito dela (e pouco importa à poesia se morreu ou vive. Ela está mais nos vazios, na soma de todos eles). Sim! Nos abismos não ditos, nos silêncios! É ali que encontramos sua mãe! Ela está na saudade. Na saudade indescritível. Na saudade que só é possível ser explicada com o silêncio de quem a sente a alguém que já tenha passado pela dor mais lacerante do silêncio de uma ausência semelhante! 
Sua mãe se encontra em um lugar que nenhuma palavra, nenhum poema pode exprimir, mas pode o silêncio, o vazio, o nada: Numa saudade.


Gilberto Leite