sexta-feira, 8 de novembro de 2013

DEUS DE UM MENINO CURIOSO




Acho que nasci errado por um lapso divino. Uma dose excessiva de dureza talvez tenha sido semeada no meu coração ou alguns grãos de senso crítico derramados em demasia em minha consciência.
Desde muito pequeno, bem pequeno eu já era do tipo que para acreditar em algo tinham de me provar ou usar argumentos que me convencessem sem a menor possibilidade de restarem dúvidas (provar e convencer são coisas diferentes).
Talvez uma herança geneticamente longínqua de um tal Tomé, ou São Tomé. Quem sabe? Embora eu não traga nada de santo nem de apóstolo em mim.  
Acredito que Tomé tenha sido cuidadosamente sábio. Se alguém ressurge transfigurado, transformado, mostrando uma aparência nova e diz: “eu sou aquele ”, nada mais coerente do que pedir:  “ (por estar com aparência diferente) me prove que você é aquele”.
Mas volto a falar de mim:
Ainda muito cedo tinha certa dificuldade em me relacionar com a fé. Era difícil ter fé no invisível, no intocável.
Assim, minha crença em Deus era precária embora eu confiasse nele. Crença e confiança também são coisas diferentes.
Quando minha mãe me falava a respeito de Deus, eu indagava:
“você já viu Deus?”  Ela me respondia “não”.
Então eu lançava outra pergunta:
“O padre ou os pastores crentes já viram Deus?” Ela me respondia “não”.
Certo dia, coroinha da paróquia que frequentávamos, perguntei ao vigário:
“O papa vê Deus?” Respondeu-me: “ver não, porém, recebe suas inspirações”  

Bem, se ninguém, nem o papa vê, quem me assegura que ele existe?  – questionava.
Mas não perdia a confiança.
Tinha até uma certa intimidade com ele porque criança não precisa crer para confiar. Se eu dissesse que hoje, adulto, eu confio em algo ou alguém cuja existência não me convence, perderia na hora a confiança de todos na minha inteligência. Porém, criança, eu podia. O mundo mental infantil é diferente. Criança pode muitas coisas que adultos não podem.
Confiando, minhas rezas eram honestas, meus pedidos eram justos dentro dos critérios de justiça estabelecidos pela religião. Nunca, eu quase sou capaz de jurar, jamais em uma prece fiz algum pedido importante que fosse todo para mim (exceto uns dois ou três, para não pensarem que estou exagerando, uns dois ou três de pequenina importância, como esse que aconteceu lá pelos meus nove anos: “Deus, se não for pedir muito, faça com que algum colega meu que tenha trazido um lanche bem gostoso para a hora do recreio perca a fome por completo e me pergunte se eu quero comer no lugar dele; desculpe o meu pedido mas a fome hoje está brava!). Pedidos grandes eram sempre para os outros.
Eu rezava muito, pedia muito, reconheço, mas prometia que em troca, caso fosse atendido, eu faria isso e mais aquilo ou deixaria de fazer aquilo outro. Assim era o meu relacionamento com Deus. 
É possível que houvesse algum quê de esperteza da  minha parte pois eu já tinha conhecimento da fala de Jesus que dizia que se um pequenino pedisse seria atendido, assim eu usava da minha condição de pequenino. Por outro lado, que culpa eu tinha se quem me ensinou isso foi o filho dele, quer dizer, d’Ele?
A grande verdade é a seguinte: eu pedi, pedi, pedi, pedi, e nada...
Uma vez, na confissão eu disse isso ao padre: “A gente pede e Deus não atende!”
O padre argumentou: “Talvez você esteja querendo muito mais do que mereça, talvez esteja indo pouco de encontro a Ele... Talvez você peça para pessoas que não mereçam receber o que você pede...”
Tal resposta me fez refletir por muito tempo sobre o que é que determina o que cada um de nós merece. O que é merecer muito, pouco, mais ou menos... Por que é que eu tinha de ir ao encontro de Deus? Devia ser o contrário: se, conforme me ensinaram, ele me criou, me amava e me desejava recolher de volta no reino dos céus, ele é que devia vir ao meu encontro. E podia ter vindo de um jeito muito simples, colocando no meu coração uma sementinha de fé.
Quanto ao padre questionar se os outros mereciam ou não o que eu  pedia me bateu no coração como ofensa, as pessoas por quem eu implorava (e não eram bens ou luxos; eram alegrias, paz, bem-estar) eu as amava e quem eu amava merecia sim, além de que – eu li na bíblia e ouvi nos sermões – eram todos criaturas à semelhança de Deus que muito as queria (também)!
Ainda criança eu achei muito complicado pensar nessas coisas. Complicado e perigoso pois eu tinha um medo enorme de pecar. Aí deixei de pensar nisso.
Resolvi que um dia, pelo meu próprio esforço, sem reza nem nada, iria conseguir tudo aquilo que vivia desejando para mim e para os outros.

O problema é que eu precisava que as coisas acontecessem naquele tempo, não depois! E elas não aconteceram.

Gilberto Leite