sábado, 23 de novembro de 2013

Elegia para um mestre ausente


João era um desses raros amigos que podiam entrar em casa de qualquer pessoa conhecida sem bater, tocar campainha, nem avisar que iria, mas não o fazia. Sua educação e respeito pelas pessoas não o permitiam.
João podia, estando em casa de alguém, abrir a geladeira, pedir um café, espalhar-se no sofá, mas não o fazia. A polidez acompanhava todos os seus atos.
João não dizia palavrões, não usava vocabulário chulo nem procurava adaptar-se à linguagem e habitos dos jovens. Não que se mantivesse longe deles ou deixasse de admira-los. Não o fazia por entender que para se comunicar com a juventude podia faze-lo tendo a idade que tinha, o vocabulário que construíra com suas leituras e mantendo, sim, a distância imensa que separa um mestre do aprendiz.
João era um mestre.
Lecionou Inglês e Arte por mais de trinta anos, vinte deles em companhia de minha mulher. Foi professor de minha filha, de centenas de amiguinhos dela e de milhares de outras crianças, jovens e adultos que hoje colhem frutos do que com ele aprenderam.
Muitos dos seus alunos o amavam. Outros o detestavam.
Detestavam-no porque, justo e íntegro, jamais permitiu ou aceitou a indisciplina, o desrespeito, descompromisso, desinteresse. Em nenhum momento foi conivente ou complacente com a mentira ou falsidade. Era forte em defesa da honradez e das verdades como as entendia.
João não sentia inveja, por isso não sabia conviver com invejosos. Não aceitava a injúria e por não aceita-la recusava a aproximação de pessoas maledicentes. Não cultivava maldade, por isso, de tanto observar a disseminação do mal em todo o mundo sem que nada pudesse ser feito para reverter, de tanto ver crescerem as injustiças, de sentir na pele que o bem não pode vencer o mal, era um homem doente.
Além de doente e professor, João era artista.
Em tudo o que punha as mãos provocava transformações.
Diz a lenda que um rei chamado Midas, com seu toque, transformava tudo em ouro.
João transformava qualquer coisa em obra de arte.
Sua casa era o melhor exemplo: do copo de beber água ao lustre antigo dependurado no teto da sala por ele decorada, tudo era arte.
Dizem que artistas se divorciam do mundo exterior.
João não. Não podia divorciar-se porque, como dito, foi mestre, e mestres não devem viver em seus universos, enclausurados, pois perdem parâmetros para orientar seus discípulos que perambulam carentes do lado de fora do mundo ideal.
As pessoas que o amavam formariam uma multidão se pudessem ser juntadas.
Talvez um ginásio de esportes não fosse bastante para tanta gente.
Na Vila Augusta, bairro de Guarulhos onde viveu, nas regiões onde lecionou, era raro encontrar alguém que não conhecesse o João.
Ultimamente andava descontente com a contramão tomada pela Educação como um desvio cômodo para a política do ensino, que despeja na contramão do caminho da excelência humana os estudantes que hoje transitam pela escola.
Andava desiludido com o atual modelo de Escola sem autoridade, sem força, degradada.
Vivia inconformado com a proliferação da delinquência como consequência da enfermidade da Educação, da Família, da política do seu país. Que também é o meu, possivelmente o seu que me lê.
Ainda assim torcia pelo Brasil. Gostava de ver nossa seleção de Vôlei vencer. Adorava ver o Ayrton Senna fazer tremular a bandeira verde amarela azul e branca em terras de estranhos. Mas, o Senna morreu e as outras bandeiras ficaram enroladas debaixo de sovacos malcheirosos. João lamentou a morte do ídolo e a inesixtência de outros que servissem de ícones.
Ele sentia falta de esportistas como o Ayrton, de políticos como Ghandi, de pintores como Monet e Almeida Junior, de poetas como Gonçalves Dias. Achava que podíamos ter mais de um compositor como o Chico Buarque de Holanda; Pensava que os brasileiros precisavam ler "O Meu Pé de Laranja Lima", "Rosinha, Minha Canoa", "O Pequeno Príncipe", "A Insustentável Leveza do Ser", "Longe é Um Lugar Que Não Existe"...
João passou um Natal conosco porém nunca deixou de nos visitar em todos os natais. Vestia-se de Papai Noel para encantar as crianças, gostava de carnaval e desfilava pela escola de samba Acadêmicos do Tucuruvi. Tinha, silencioso, sua religião, mas sentia um amor profundo por Chico Xavier e suas obras e procurava praticar seus ensinamentos.
Uma noite, comemorávamos o aniversário de minha mulher, João chegou com um vaso de flores (ele não dava presentes caros, mas valiosos). Conversamos muito e na saída ele nos deixou uma intimação: "Precisamos marcar outro encontro como esse. Assim que passarem as confusões do final de ano vamos acertar uma reunião com todos, todos..."
Desceu a escadaria do restaurante e foi-se embora.
Foi a última vez que o vimos.
João, hoje, é uma lembrança.
Morreu só, num janeiro amargo, como se não tivesse amigos, filhos, parentes...
Morreu só, como morrem indigentes, fugitivos, cães vadios...
A vida é algo meio tolo: assim que ela termina descobrem-se que dos muitos amigos que tínhamos nem todos eram amigos verdadeiros e, dos poucos que realmente eram, muitos não podem estar presentes.
João morreu repentinamente. Em seu velório seu corpo estava só.  Dos milhares de amigos, nenhum.
Fomos à missa de mês, entretanto não valeu muita coisa: João não estava mais entre nós.
Sua casa, vazia, está se degradando como a Escola que ele temia que apodrecesse.
Se nenhum dos filhos cuidar, em breve a casa serão escombros.
Escombros não combinam com o João. Ele que foi uma das mais belas edificações em que um ser humano pode se tornar.
Se os herdeiros não cuidarem, em breve nada mais haverá que ele tenha deixado.
Ainda que cuidem da casa e dos bens, um dia João não haverá mais nem em memória pois, como ele, todos passaremos.
João Arlindo Teixeira. Professor. Mestre. Amigo. Acabamos de marcar a missa de terceiro ano.
Mas, não valerá de muita coisa.
Nós queríamos mesmo o amigo vestido de papai noel enfeitando o Natal. Queríamos o mestre, professor, artista. Queríamos um telefonema dele, não a voz do padre encomendando um João que não temos mais a um Deus que nem sabemos se presta atenção à voz do encaminhante.


Gilberto Leite
gilbertopleite@hotmail.com