quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Tudo passa



Pelo vidro da varanda eu observava o sabiá agitado sobre o galho jovem da primavera  que oscilava com o peso da ave. Levantando os olhos via por sobre o muro o azul-escuro da Serra da Cantareira, uma pequena parte dela ainda não devastada por humanos destruidores.
Ocorreu-me um desencadear de pensamentos intrigantes: Quanto tempo viveria o sabiá, tendo de vir da serra ao meu quintal em busca de alimento, correndo o risco de nem sempre encontrar? Teria ele filhotes? Quanto suportam viver filhotes de sabiás que têm de viajar distâncias enormes e voltar a alimentá-los um a um quando encontram alimento? Qual será o último sabiá dessa parte visível da Serra da Cantareira? Qual será o primeiro dia em que nessa parte da serra, em lugar de mata, haverá apenas o amontoado de casas de tijolos baianinhos, que já vem avançando pelos dois flancos? Quanto tempo?
Verei o último pássaro? Verei a vegetação dessa Cantareira escassear até que se derrube a última árvore ?
“Verei ?” Uma inquietante indagação pois dou-me conta também do meu tempo:
Ao nascer todos já estamos prestes a morrer. Morte não tem hora certa. Apesar de pesquisas apontarem expectativas de vida cada vez mais longas, é certo que se morre com um dia de vida ou mais ou menos, assim como se morre aos cem anos ou mais ou menos, sendo que à extremidade da velhice as possibilidades de chegada são menores. Menos pessoas morrem com mais de cem anos. Poucas, proporcionalmente à população mundial, encerram a vida com mais de noventa, oitenta...
Pensando assim concluo que se somar à minha idade atual o número de anos correspondente à metade dela, viver até lá me colocará entre os casos raros de longevidade.
Caso some um terço do tempo já vivido, chegarei ao limite do que se pode atingir com boa saúde mental, razoável saúde corporal, certa independência motora...
Isto me indica que a cada hora passada estou caminhando em velocidade mais acelerada ao encontro da morte. Não me restam décadas como quando eu era criança. Não me sobram muitos anos como quando eu era jovem.  Não tenho muito tempo.
Esse tempo pode acabar antes de eu encerrar este comentário ou logo em seguida; pode ocorrer que termine amanhã, mês que vem, mas, o momento certo é o de menos importância. O que deve me ocupar agora é a preparação. Para a morte.
Não me refiro àquela preparação espiritual, religiosa, não, não é isso. O que vem depois, se é que vem, já está definido e nem é motivo de minha preocupação. Refiro-me ao que fazer, ao que deixar antes que o dia extremo chegue.
Como não posso saber que dia será esse, tenho de pensar de forma lógica: falta pouco e tenho de correr. Correr muito.
Dirão alguns: Correr para a morte é tolice; inteligente é viver com intensidade a vida que resta; vai que ela ainda seja mais longa do que espera!
Digo eu: Restante de vida é como sobra de feira. Vida é ilusão. Vida é uma enganação da qual fomos vítimas; caímos nela inocentes e acreditamos em futuro. Futuro não existe, é uma farsa que está sempre além, nunca pode ser alcançado; quando chega já se tornou passado. Real é o fim. Ninguém nem nada fugirá dele. Do sabiá à montanha, do tijolo baianinho à vida humana, tudo passará.

Gilberto Leite