Por volta de meus dezesseis anos, por necessidade da profissão em que eu
me iniciava comecei a aprender desenho técnico na área de mecânica. Era
muito fácil. Exigia, de início, um mínimo de domínio de certos instrumentos
como régua, compasso, esquadros, lapiseira e poucos outros. A esse domínio
havia-se de somar um conhecimento razoável de geometria e perspectiva. Qualquer bom desenhista ou técnico ou
engenheiro entendia ou se fazia entender na linguagem traçada, tracejada,
pontilhada, com suas gramáticas universais.
Um
desenho técnico tem a mesma interpretação em qualquer lugar do mundo.
Um
arquiteto, ao examinar o projeto de outro arquiteto entende perfeitamente
mesmo que falem idiomas diferentes e vivam em países distantes.
Entre
um desenhista técnico e outro pode/podia haver grandes diferenças na pressão exercida com o grafite sobre o papel ou na inclinação da lapiseira, em virtude de
um ser mais forte ou rude, um destro e outro canhoto, fraco, tímido, entretanto, a
interpretação é sempre a mesma e inequívoca.
No parágrafo anterior eu
usei “pode/podia” porque hoje em dia o ato de desenhar sobre uma prancha usando lapiseira, réguas, luminárias, transferidores, escalas etc. está quase
totalmente substituído pelo desenho computadorizado.
Talvez ao publicar este texto o desenhista técnico já não exista mais e em seu lugar tenha entrado algum software mais preciso. Nesse caso, não haverá nem como distinguir a pressão dos traços. As impressoras praticamente se equivalem e ainda que umas se diferenciem de outras, as diferenças serão delas, impressoras, e não entre quem clicou em “imprimir”, ou seja, se desenhos técnicos só não eram impessoais por trazer uma rubrica, agora deixam de ser por completo.
Talvez ao publicar este texto o desenhista técnico já não exista mais e em seu lugar tenha entrado algum software mais preciso. Nesse caso, não haverá nem como distinguir a pressão dos traços. As impressoras praticamente se equivalem e ainda que umas se diferenciem de outras, as diferenças serão delas, impressoras, e não entre quem clicou em “imprimir”, ou seja, se desenhos técnicos só não eram impessoais por trazer uma rubrica, agora deixam de ser por completo.
Iniciei este texto referindo-me a desenho técnico para lembrar que nesse tipo de registro gráfico a pessoa que o executa ou
executava deve/devia dominar certas habilidades, uma linguagem específica para sua comunicação interpessoal no dia-a-dia profissional – e
agora, cada vez mais, necessita da apropriação de conhecimentos na área da informática caso não queira ser excluído do mercado.
Fiz
isso, para que fique muito clara a diferença entre desenho técnico e desenho
artístico; representação gráfica técnica e representação artística; pintura e
pintura artística.
Já
me perguntaram: “Qual a diferença? Os dois tipos de desenho não contêm arte?”.
Sim. Entretanto, o primeiro, o desenho técnico, só permite uma leitura. Se for
lido de duas maneiras diferentes, ou os leitores erraram ou errou o desenhista.
A interpretação só pode ser uma, caso contrário algo sairá errado e desse erro
poderá advir um ligeiro prejuízo ou uma tragédia.
Por
outro lado, você já observou um quadro, uma tela, um afresco, um óleo,
aquarela?
Mas,
só observou ou tentou ler? Já lhe ocorreu que dois artistas jamais pintarão a
mesma cena, ou nunca representarão o mesmo objeto da mesma maneira? Que o
estado de espírito de quem pintou interage com o seu no momento em que decifra
cada pincelada? E que os estados de espírito podem mudar a cada observação ou
leitura?
Já
reparou que na escolinha infantil, quando a professora distribui aos pequeninos, figuras iguais, impressas, para que eles as pintem, nenhuma será igual
a outra? Ainda que a professora instrua: “a água é azul, a árvore é verde, o
sol é cor de laranja...” nenhum azul, verde ou laranja sairá estampado igual aos demais
azuis, verdes e laranjas? Já percebeu que cada criança tem uma leitura mental e
uma transposição diferente para o papel, da palavra ou da ideia de azul,
amarelo, vermelho e de água, árvore e sol?
Ocorre o mesmo com pintores experientes, artistas verdadeiros: olharão para um mesmo objeto e ao registrá-lo nunca obterão resultados iguais. Será possível perceber a emoção e intenção que desejaram transmitir, entretanto, cada obra dará a cada observador infinitas possibilidades de fruição.
É
importante e maravilhoso analisar pinturas ou registros artísticos. Isso nos aguça um outro senso de
observação e visão, geralmente adormecidos em nós. É bom conhecermos várias
obras de um mesmo autor, depois, de vários, pois nos dão familiaridade com suas características
predominantes como certos traços frequentes, utilização insistente de
determinados tons, preferências de cor ou tipos de paisagem ou objetos,
inclinação da luz numa direção etc. Com
alguma experiência e determinado tempo de observação, passamos a conhecer quase
na intimidade um pintor ainda que ausente deste mundo há meses, anos ou
séculos.
Mas,
o que eu mais aprecio ler não são as cores, as luzes e traços, porque na maioria
eles nos são dados com leitura praticamente óbvias ou alcançáveis.
O
que me fascina mais é a leitura das sombras.
Muitos artistas utilizaram tempo importante de suas vidas estudando as sombras nas imagens reais para reproduzi-las em suas figuras; outros, já presenteados pela natureza com o dom da técnica da semiluz simplesmente exercem-na, fornecendo-nos, uns e outros, obras emocionantes aos olhos de olhar, de sentir e de comover.
Muitos artistas utilizaram tempo importante de suas vidas estudando as sombras nas imagens reais para reproduzi-las em suas figuras; outros, já presenteados pela natureza com o dom da técnica da semiluz simplesmente exercem-na, fornecendo-nos, uns e outros, obras emocionantes aos olhos de olhar, de sentir e de comover.
No
objeto pintado está o retrato do que o artista viu ou imaginou, adicionado de
riquezas extras involuntárias que poderiam ser comparados aos chamados atos
falhos, na psicologia. Ou voluntários, equivalentes às observações de rodapés
nos textos escritos. O prazer de saber
ler esses objetos, seus atos falhos ou seus rodapés está na possibilidade de
nos aproximarmos muito da personalidade do compositor. É como se o ouvíssemos.
Como se fôssemos o(a) terapeuta e ele o paciente que se expõe.
Nas
luzes estão as falas do artista. Nas sombras, lemos analogias, ou o que o
compositor procurou ocultar, eufemizar, ainda que, também, inconscientemente.
Se não for uma sombra puramente técnica e calculada – é importante frisar– ali
estará um pouco de sua alma secreta. E como é valioso conhecermos almas!
Por
isto eu sempre oriento a quem posso, a ler mais outras linguagens além da
escrita e falada. Costumo sugerir que leiam fotos, retratos e pinturas. Luzes e
sombras. Não importa de quem.
Gilberto Leite
Nenhum comentário:
Postar um comentário