No Alto do Cristo,
de onde a cidade parece estender-se como presépio sobre o planalto entre a
rodovia e o rio, certa noite Jady e eu trocávamos hálitos e
sussurros num idílio em que nossas almas pareciam fundir-se.
No Alto do Cristo
as estrelas são mais próximas, o calor noturno
deita-se delicado.
Jady e eu, então,
tínhamos os corpos ponteados de pequeninos azuis estelares, envolvidos pela
suavidade do verão em nós, como lençol de fino véu de seda.
O que dizíamos?
Assuntos nossos, somente nossos; diálogos registrados para sempre nos
invisíveis fios das ondas eternas que constroem a existência, a vida e o tempo.No Alto do Cristo a noite avançou impelindo-me a descer para o seio do presépio de casas reais, ruas, praças, igrejas, arvoredos.
Olhando para o alto, o Cristo em estátua me pareceu pequeno, contudo, seus braços abertos me sugeriam estarem a
postos em proteção a Jady. Confiei que sim.
Segui pensativo pela
avenida estreita, angustiado pelo dilema que me acometera se devia ou
não voltar.Assuntos nossos somente nossos conduziam-me à indecisão.
Julguei melhor não voltar. Nunca mais.
Passei noites sem
dormir, dias sem viver, mas a decisão haveria de ser cumprida.
Que tolice, percebi além, muito além.Em não voltar, penso, feri Jady. Em não voltar deixei meu coração no morro do Cristo, abandonei minha alma pelas ruas e praças e igrejas e todos os arvoredos da cidade-presépio. Em não voltar vi minha vida transformar-se em escombros.
Hoje, às vezes
acordo no meio do sono, ou me assaltam pesadelos de remorsos no meio do dia e
penso: Se o morro e o Cristo estão ainda lá, por que ela, Jady,haveria de não estar? Se conheço o caminho,
por que insisto em não retornar?
Porque faz tanto
tempo. Respondo-me.Ela já nem se lembrará. Deduzo.
Se se lembrar nem me desejará mais. Lamento.
Certa noite no morro
do Cristo eu fui tão feliz ao lado de Jady!
Agora, prisioneiro perpétuo de
um remorso que eu poderia ter evitado se voltado ao Alto do Cristo.Agora, um morro, um cristo e uma saudade interminável de uma namorada cujas feições, timbres e cheiros nem sei mais.
Nenhum comentário:
Postar um comentário